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domingo, 23 de maio de 2021

Dez perguntas a Ana Lia Almeida



Compartilho com vocês a minha primeira entrevista como "escritora", realizada pela equipe organizadora da Coletânea Mulherio das Letras Portugal/ 2021, da qual fará parte um conto meu intitulado "O enterro do baiacu".

Dez perguntas a Ana Lia Almeida

O pré-lançamento desta coletânea será no dia 29/05, às 17hs, pelo canal de YouTube da Editora In-Finita.

sábado, 8 de maio de 2021

RITA NA LUTA - Quem tem filho, não tem sossego (Ana Lia Almeida)



Você viu o tamanho da carreata que fizeram para ela em Campina Grande? A menina é um sucesso! Como eu queria uma filha dessas, que virasse boneca e  fizesse de tudo pra resolver meus problemas de saúde… Meus meninos só me dão aperreio. O mais novo anda se metendo com gente errada, dia desses quase a polícia leva. Estão só esperando ele ficar de maior. O mais velho você conhece, não é? Carlinhos. 

Rita se prendeu naquela conversa desde que subiu no ônibus. Já dava pra escutar do primeiro degrau da escada, de onde ela lutava para se manter na fila de entrada, cheia de sacolas. Agora, já tendo passado pela roleta, podia ouvir melhor as duas mulheres do banco alto, logo após o cobrador. Acomodou-se ali mesmo, represando um pouco os passageiros que entravam no lotação. A turma passava acotovelando Rita um pouquinho, para descontar, mas ela nem ligava. A viagem era longa e uma boa conversa dos outros ajudava muito a passar o tempo.

Carlinhos está lá, na luta dele. Ah, ele entrega de tudo que tem no aplicativo, principalmente pizza. Pensou em sair por causa daquele aborrecimento, mas acabou ficando. Difícil demais achar trabalho, infelizmente não tem muito como escolher. Você não soube não? Carlinhos foi entregar uma pizza que veio errada. Nada a ver com ele, mas o cliente ficou zangado, jogou uma conversa troncha que ele não podia ir embora e tinha de devolver o dinheiro, terminou chamando o menino de macaco. Essa gente é assim mesmo, uns sebosos. Eu fico com ódio! Sei que Carlinhos terminou dando uns tapas no homem, se atrasando para a entrega seguinte e ainda descontaram da corrida do bichinho. Ele tentou explicar tudo à dona da pizzaria, mas ela não quis conversa. Disse que cliente tinha sempre razão e ficou por isso mesmo. E tem mais, ainda falou da gente aqui do “Norte”: um pessoal muito devagar e ruim de aprender as coisas; bom mesmo era de onde ela vinha, das bandas do Rio Grande do Sul. Foi o que eu disse a ele: veio fazer o quê aqui então, porque não volta pra lá? Mas deixa. Aqui se faz, aqui se paga. Não viu a Juliette, aí, milionária, com carreata e tudo?

Quem tem filho, não tem sossego. Eu já vivia com medo dessa moto de Carlinhos, para cima e para baixo em todo canto. Quando não é entrega de motoboy, é passeando com a namorada. Agora fico também com medo de ele se meter noutra confusão e perder o trabalho. Além do mais, fiquei meio sentida, com essa história, sabe. A gente cria um filho numa luta danada, passa os valores, aí vem um desgraçado chamar de macaco e uma mizera descontar o salário. Se eu pudesse, dava era uma pisa em tudinho. Eu sei que não resolve, mas quando mexe com filho a gente vira onça. 

Era muito verdade, Rita pensou. Quando alguém mexia com Maria Clara, que também não lhe dava sossego, ela virava uma onça, mesmo. Levantou suas sacolas do chão sujo do transporte e, devagarinho, chegou no lugar que tinha vagado duas fileiras adiante. Já sentada, orgulhou-se do sonho de Clarinha ir para a faculdade. Sua filha era linda, inteligente e corajosa, que nem Juliette.

Foto: https://diariodamanhapelotas.com.br/site/transito-e-itinerario-de-onibus-serao-modificados-no-domingo/

domingo, 25 de abril de 2021

RITA NA LUTA - Casa de Família


    Continuo lá, com D. Laura. Os meninos crescidos, estudando, ficou melhor para mim. Nessa idade, você sabe, não dá mais para ficar correndo atrás de criança pequena. Já vou fazer o quê: quarenta e… sete. Não ria não, Aleide, jajá você também vai começar a esquecer. É tanta idade que a gente vai parando de contar. O tempo corre, também, repare que já faz mais de ano que a gente é amiga de ônibus, encontro marcado aqui, toda semana.

    D. Laura está bem, sim. Esse pessoal vive bem, por mais que não achem. Sempre tem um grande problema que para a gente é pequenininho, é ou não é? Eu bem queria os problemas desse povo. Inventou crise de pânico com a mania de limpeza dela, foi pra médico de cabeça e tudo. Não pode ver uma sacola de supermercado que começa a suar frio. Sobra sempre para mim. É um tal de água sanitária em maçaneta, passar pano na casa três vezes por dia, banho de álcool nas compras, um aperreio só. Hoje, mesmo, minha filha, não foi moleza, a casa estava uma bagunça, ainda bem que tinha lugar aqui pra sentar porque minhas varizes vão estourar.     Você acredita, Aleide, que dia desses sonhei que eu era D. Laura tendo um piripaque desses que ela tem de vez em quando? Eu estava na sala da casa dela, é uma sala meio cafona, mas cafonice organizada, de gente que tem dinheiro. É um tal de quadro de foto de família misturado com santo e time de futebol na parede, que nem em casa de pobre, mas cheio de moldura dourada, não sabe? E a mobília da avó dela: uma mesinha de centro de madeira com um jarro de flor natural, que ela manda comprar toda semana; com mais dois cinzeiros chiques pra ninguém fumar, que ela é asmática; e também tem um troço de madeira, alto, que não serve para nada, só pra apoiar um calendário da igreja dela, com a Virgem Maria olhando praquelas janelas de vidro nas paredes de madeira. “Rústico”, ela diz, D. Laura. Eu acho é brega, mesmo. Se eu tivesse dinheiro ia querer uma casa toda moderna, os móvi tudo novinho, jamais uns troços daqueles.     Pois eu estava lá, no sonho, bem sentada no sofá listrado, olhando para as flores, quando vi que o jarro branco da avó dela estava todo empoeirado, como se a empregada, que não era eu, lógico, tivesse esquecido de limpar. Aquela sujeira me descontrolava, subia um nervoso pelas pernas até a cabeça, eu começava a me tremer todinha. Eu caía no chão de tanto me tremer, quando acordei.      Trabalhar em casa de família não é fácil não, viu, Aleide? Tem uma hora que a gente endoida com as esquisitices deles. Vá com Deus, minha amiga, daqui a pouco chega meu ponto também. Só eu que falei hoje, depois você me conta as coisas do salão. Até pra semana, amém.

Foto de Ana Patrícia Almeida

sábado, 10 de abril de 2021

RITA NA LUTA - Culto

 Vamos comigo esse domingo, Bença. Eu passo na sua casa. O Pastor, você vai ver, ele é agraciado. Estou te falando, a gente sai do culto iluminado pela fonte do Senhor, é uma livração. Além do mais, o que você tem para fazer no domingo, mulher de Deus? Preste atenção no que o Pastor explicou semana passada: o descanso dominical é um repouso ativo, voltado à oração e ao louvor, não um convite para o ócio que só leva aos pecados da preguiça, da gula e da luxúria. Mente vazia, oficina do diabo, você bem sabe.

Os quarenta minutos de espera na parada de ônibus já eram castigo suficiente quando a vizinha de Rita chegou com essa conversa. Era do tipo que falava pegando nos outros, exigindo atenção exclusiva. Não tinha escapatória. Encarava as pessoas sem a mínima chance para o desvio dos olhos e quando sentia que o olhar estava parado, pensando em outra coisa, ela apertava as duas mãos nos ombros, segurava firme no braço ou pressionava levemente o queixo da pessoa com o polegar e o indicador. Por sorte ela não pegava o mesmo ônibus de Rita, mas por azar ônibus nenhum passava nessa manhã abençoada.

Irmã, agradeço demais o convite, mas eu já tenho a minha Igreja e por enquanto estamos orando pela internet. Foi até proibido fazer culto presencial, não foi? Com esse povo todo morrendo, Deus me livre ficar aglomerada, já basta esses ônibus lotados que a gente é obrigada a pegar. Eu prefiro o culto on line, mesmo, porque enquanto assisto já vou adiantando o almoço e fico logo livre pra dar o meu cochilo. Até porque esse domingo tem Paredão do BBB, eu acabo dormindo tarde e no outro dia estou aqui de novo esperando esse ônibus que não passa. É hoje que Dona Laura acaba comigo, atrasada desse jeito.

Seguiram-se dez minutos de sermão: como ela podia se somar às vozes contra a liberdade religiosa nesse mundo perdido onde os bares e os shoppings estão todos abertos e lotados; como ela podia alimentar sua alma da graça divina por meio de um computador; como era que uma mulher direita como ela podia assistir aquele programa do demônio cheio de depravações.

É que eu adoro a menina Juliette. Ela é daqui da Paraíba, sabia? E como sabia, se você não assiste? Ela não é rapariga nada, é uma menina muito inteligente e estudiosa. Minha filha Maria Clara está estudando para entrar na faculdade onde ela se formou, com aqueles professores maravilhosos que ela falou lá na televisão. Eu sei que no BBB estão se aglomerando também, mas pelo menos não tem risco pra mim, que tô assistindo, não é verdade? E é bom acompanhar um pouquinho da vida dos outros, já que não pode sair de casa. Graças a Deus chegou o meu ônibus. Até logo, Irmã, se cuide. Fique em casa e ore por mim, porque a patroa hoje vai estar furiosa.  

Foto:https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2018/03/menos-de-um-terco-das-paradas-de-onibus-de-fortaleza-tem-abrigo.html

segunda-feira, 29 de março de 2021

Poema de Ana Patrícia Almeida (25/03/2013)

Quando Ana Patrícia Almeida leu o episódio de Rita na Luta, "Cansaço", lembrou-se de um poema que havia escrito há 8 anos atrás. Compartilho com vocês na esperança de incentivar esta excelente fotógrafa a cruzar mais seus caminhos também com as artes das letras. 


Lá vem o ônibus lotado

Muita gente esperando na parada

Ele está vinte minutos atrasado

A professora já estava estressada

Tem gente sentada que dormiu

'28 pessoas em pé', diz a plaquinha

Só perto de mim tem mais de mil

O ônibus desce a ladeira correndo

Queima uma parada

Suja a calçada

Que a mulher estava varrendo

No fim da ladeira tem um sinal

Do meu lado tem um homem

Fedendo mais que bacalhau

O ônibus para de repente

Quem estava dormindo acordou

Batendo o dente no banco da frente

Quem estava em pé não se segurou

Caiu empregada, doutor e militante

O motorista nada notou

Tinha bastante espaço na frente do volante

domingo, 28 de março de 2021

Rita na Luta - Cansaço

 Mas você está cansada de quê? A dois passageiros de distância, Rita se pôs a imaginar seus mil motivos para responder àquela pergunta que o rapaz fez à moça bem ali do lado. Sua noite mal dormida por causa da azia depois do cuscuz com leite no jantar. Suas horas extras para pagar a prestação do celular novo de Maria Clara assistir as aulas dela. O serviço que era muito na casa de Dona Laura. As varizes que ao fim dos dias doíam cada vez mais em suas pernas e ela não podia nem sentar naquele ônibus lotado.

Estou cansada das suas brigas, do seu ciúme, de você não querer deixar eu fazer as minhas coisas. Estou cansada de você, Eugênio. Os olhos de Rita se encontraram com os de algumas outras pessoas que estavam ali perto do casal em crise. Os muitos passageiros que ouviam a conversa partilhavam expressões de assombro ou divertimento enquanto Eugênio continuava com o braço enlaçado na cintura da moça como se aquilo tudo não fosse com ele.

Calma, neném. Não me chame assim, já disse mil vezes. Ah é, e por acaso ele não te chamava de nenhum apelido carinhoso, hein? Está vendo só, Eugênio, é disso que estou falando; eu vou-me embora. A moça foi abrindo caminho entre os colegas da condução e Eugênio gritando que aquela não era nem a parada dela, que o motorista não abrisse a porta porque tinha uma mulher louca querendo descer fora do ponto, que ela ia se perder e podia ser atropelada, e nisso a moça já descia correndo as escadas do ônibus em direção à rua.

Cinco segundos de silêncio no lotação. Depois disso, foi o homem chorando alto com as mãos no rosto e o falatório generalizado, os mais de parto explicando aos de trás o que tinham visto e enfeitando a história de mil modos. Que a mulher não gostou do cara tê-la chamado de neném e foi-se embora; que um tal de Efigênio tinha levado um chifre daquela moça que saiu correndo; que um passageiro estava batendo na mulher mas ela conseguiu fugir e uma hora dessas deveria estar na delegacia com a Maria da Penha; que havia uma mulher louca no ônibus que fugiu correndo do irmão.

Rita, que era da turma dos mais perto e assistira a tudo com a maior atenção, não quis se meter. Não confirmava nem desmentia nada, concentrada em seus pensamentos. Sujeitinho esquisito, o tal do Eugênio. Não era à toa que a moça havia se cansado. Ficou lá gritando depois chorando, a maior cena, mas parado feito poste. Porque não foi atrás dela? Vai ver teve uma livrança deixando esse daí para trás. Agora, isso era lá conversa de se ter em ônibus? Ela que nunca ia se passar para isso, expor suas intimidades na frente de todo mundo daquele jeito. Já estava mais do que na hora de vagar um assento para ela, que as varizes hoje estavam demais.

(Imagem retirada de https://amorcronico.wordpress.com/2016/04/18/briga-de-casal/)

sábado, 13 de março de 2021

RITA NA LUTA - Mulheres

 


Rita cochilava em pé, o rosto apoiado no braço levantado que unia a mão firme à barra de segurança do ônibus. Sonhava aos pedaços no sacolejo da viagem, interrompida vez ou outra pela atenção à bolsa velha sufocada debaixo do outro braço.

Nessa vigília sonolenta já passava da metade do caminho quando a conversa de duas moças a despertou. “Eu ainda não entendi, me explique de novo”, perguntava impaciente a que ia em pé, bem ao lado de Rita, mãos apoiadas nas ferragens ao redor do banco em que a amiga ia sentada. Conhecia bem o tipo, dessas pessoas folgadas que se espalham na condução ocupando lugares onde várias outras poderiam se segurar. A outra passou a repetir a história, agora em volume mais alto, e Rita desperta pôde reconhecer o enredo de um de seus quase-sonhos nos cochilos interrompidos instantes atrás: “Ele apareceu lá em casa com uma barra de chocolate e uma flor, todo meloso, dando os parabéns pelo dia das mulheres”. “E o que tem de errado?”, indagava a amiga, e Rita agora também queria saber.

A moça lamentava que nos dias de hoje os homens ainda parabenizassem as mulheres no dia oito de março, quando este era um dia de protesto feito para ir a passeatas e gritar contra as tantas coisas ruins que ainda aconteciam nesse mundo, o tanto que apanhavam e ganhavam salários menores que os dos homens etecetera e coisa e tal, por isso ela sabia que não ia dar certo com o tal do Marcelino. Se ela havia devolvido a flor e o chocolate, quis saber a outra, que, de tão intrigada, havia levado uma das mãos ao queixo e assim liberado um dos apoios, prontamente ocupado por Rita. Não, não havia. A flor estava murchando num vaso e o resto do chocolate ainda estava ali guardado dentro da bolsa, se ela quisesse um pedaço. “Está servida também, senhora?”

Rita agradeceu e recusou, fingindo desinteresse na conversa. As meninas desceram em frente à faculdade. Sentada, retomou seus cochilos. Sonhou com Sandro Valério, o galã da novela, em frente ao seu portão com as mãos para trás. De repente, surge diante dela um buquê de rosas vermelhas e logo em seguida uma caixa de bombons de chocolate. O galã a toma em seus braços para um beijo apaixonado. Bem na hora em que o cobrador a acorda, já no fim de linha.

* Imagem retirada do site https://www.uniflores.com.br/ramalhete-de-rosas-com-bombons



A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...