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domingo, 13 de junho de 2021

RITA NA LUTA - Lendo no busú

 


Ao lado de Rita, um rapaz se divertia lendo um livro. Volta e meia dava umas risadinhas discretas ou parava um pouco para olhar pela janela do ônibus, pensando em algo que acabara de ler. Era um livrinho pequeno, de capa colorida, e Rita espiava com o rabo do olho para tentar alcançar um pouquinho daquilo que o rapaz parecia achar tão bom.

O moço já tinha percebido o interesse de Rita, mas fingia que não para deixá-la à vontade. Até aproximava o livro um tiquinho mais para perto dela, entre um sacolejo e outro, para que ela pudesse bisbilhotar melhor. Era um rapaz alto, bonito, cheiroso, e Rita, além do livro, também estava bastante interessada em estar perto de alguém assim. 

Vinham nessa interação dissimulada há umas cinco paradas quando uma freada brusca os interrompeu. O livro, que estava nas mãos do rapaz sentado à janela do ônibus, atravessou o colo de Rita e foi parar no corredor. Ela prontamente o apanhou, passou a mão sobre a capa num gesto de zelo e, ao devolvê-lo para o dono, aproveitou para observar melhor o título: Curtinhas da Quarentena.

A senhora gosta de ler?

Rita, surpresa e acanhada, demorou uns instantes para encontrar a resposta. Ela não sabia. Contou que já tinha lido dois ou três livros quando era mocinha, antes de largar a escola para trabalhar em casa de família. O primeiro tinha bastante figura e poucas letras, então foi o que ela entendeu mais. Os outros eram grandes, por isso ela não conseguia ler de uma vez só e demorou várias semanas, às vezes se perdendo na história e tendo que voltar as páginas, o que só atrasava mais o tempo de terminar.

Isso me aperreava um pouquinho, mas, quando eu conseguia demorar mais tempo lendo, tipo meia hora direto, eu começava a gostar e não queria parar. Mas aí tinha que ajudar minha mãe na cozinha, na faxina, dar banho nos meus irmãos... e o livro ia ficando para mais tarde, quando eu já estava com muito sono e acabava dormindo de uma linha para outra. Depois que parava era difícil voltar.

E a senhora tem vontade de tentar ler de novo?

Se fosse um livrinho pequeno e engraçado como esse, eu queria, porque as histórias são curtinhas e dá para ir lendo de pouquinho em pouquinho sem se perder.

Então tome esse para a senhora.


https://meuestilo.r7.com/fotos/gatos-e-inteligentes-perfil-reune-os-homens-mais-bonitos-lendo-no-metro-24082019#/foto/5

sábado, 5 de junho de 2021

Curtinhas da Quarentena em pré-venda


Para você que se identificou, sofreu e se divertiu com as Curtinhas da Quarentena: elas viraram livro! Sim, e já estão em pré-venda. 

Os exemplares podem ser adquiridos por R$25,00 na Livraria do Luiz, em João Pessoa, que também tem uma loja on line com entregas para todo o país! Basta acessar o site e fazer o pedido:

https://livrariadoluiz.fez.com.br/catalogo/produto/18596/CURTINHAS-DA-QUARENTENA

O lançamento on line será no dia 03/07/2021, às 19h, no Instagram da Livraria do Luiz. 

Aguardo todos vocês por lá.


sábado, 29 de maio de 2021

RITA NA LUTA - Festa e Luta


Dia de festa no buzú. O aniversariante em pé no meio do corredor, todo contente, arrodeado de um bocado de amigos identificados por chapeuzinhos de papel. Uma garotinha vinha sentada, carregando o bolo no colo; dois rapazes serviam o refrigerante que trouxeram no isopor a todo mundo do ônibus, e outro distribuía sacos de pipoca - uma festa completa. Já estava tudo preparado quando passaram pela parada em que o menino subiu e cantaram os parabéns assim que ele passou pela catraca, os passageiros todos acompanhando em coro. 

Rita estava perto do motorista, um pouco distante do núcleo da comemoração, que se concentrava na metade do ônibus. Ambas as mãos ocupadas com o refrigerante e a pipoca, se segurando como podia nas barras de ferro, as ancas apoiadas no encosto do banco. Se ela queria bolo? Claro que sim. Tratou de comer ligeiro a pipoca para desocupar uma das mãos e receber logo o seu pedaço, que o bolo até era grande, mas o ônibus como sempre estava cheio e ninguém queria perder um lanchinho bom daqueles.

“Ah, eu adoro aniversário!”, comentou o rapaz que lhe passou o bolo. Uma senhora ali perto respondeu: “É porque você é novo. Já eu não gosto nadinha, que graça tem ficar mais velha todo ano? Prefiro me esconder nessa data e não dou conversa a ninguém, para não virem atrás de saber da minha idade que nem eu sei direito mais”. Rita achou graça no resmungado da senhora porque ela também andava perdendo as contas da própria idade, depois dos trinta havia dado para esquecer. E já que se esquecia mesmo, aproveitava geralmente para arredondar bastante para baixo; já ia pelos quarenta e sete, mas prestava conta, no máximo, dos quarenta e dois.

Pensava nisso tudo entre um gole e outro de refrigerante quando, num solavanco do ônibus, todo o líquido derramou-se no vestido da senhora resmungona. A mulher, mesmo reclamando, aceitou as desculpas de Rita e aproveitou para falar mal da carreata que parou o trânsito de repente, sacudindo todo mundo dentro do ônibus. “Esses vagabundos atrapalhando o trânsito, infernizando a vida do cidadão de bem. Maldito protesto! Coitado do Presidente, um homem tão bom!”

Rita procurou uma janela para ver melhor aquelas pessoas de máscara nos carros e nas ruas, segurando cartazes e bandeiras em defesa do SUS e da vacina, pelo aumento do auxílio emergencial, e, principalmente, contra o Presidente. A turma do aniversariante começou a apoiar a manifestação com palavras de ordem lançadas para a rua pelas janelas do ônibus. A senhora reclamona começou uma discussão com o garoto que servira os refrigerantes. A confusão foi aumentando, um passageiro deu um soco no outro e Rita achou melhor descer do ônibus.

Ainda se recuperando do susto, sentou-se no banco de uma praça e ficou um tempo vendo o protesto passar. Os carros enfeitados, frases escritas de batom sobre as vidraças, cartazes pregados nas portas, bandeiras tremulando ao vento. Motoqueiros, ciclistas, pessoas a pé em pequenos grupos. Três manifestantes passaram por ela caminhando e ofereceram-lhe uma máscara que ela aceitou com um sorriso. Ao dar-se conta de sorrir, reparou que perdera a sua máscara na confusão dentro do ônibus. “Fora Bolsonaro”, estava estampado na nova máscara de Rita, com a qual ela seguiu adiante em mais um dia de luta.


Imagem retirada de https://www.brasildefato.com.br/2020/08/07/veja-como-foram-os-atos-do-fora-bolsonaro-por-todo-o-pais

domingo, 23 de maio de 2021

Dez perguntas a Ana Lia Almeida



Compartilho com vocês a minha primeira entrevista como "escritora", realizada pela equipe organizadora da Coletânea Mulherio das Letras Portugal/ 2021, da qual fará parte um conto meu intitulado "O enterro do baiacu".

Dez perguntas a Ana Lia Almeida

O pré-lançamento desta coletânea será no dia 29/05, às 17hs, pelo canal de YouTube da Editora In-Finita.

sábado, 8 de maio de 2021

RITA NA LUTA - Quem tem filho, não tem sossego (Ana Lia Almeida)



Você viu o tamanho da carreata que fizeram para ela em Campina Grande? A menina é um sucesso! Como eu queria uma filha dessas, que virasse boneca e  fizesse de tudo pra resolver meus problemas de saúde… Meus meninos só me dão aperreio. O mais novo anda se metendo com gente errada, dia desses quase a polícia leva. Estão só esperando ele ficar de maior. O mais velho você conhece, não é? Carlinhos. 

Rita se prendeu naquela conversa desde que subiu no ônibus. Já dava pra escutar do primeiro degrau da escada, de onde ela lutava para se manter na fila de entrada, cheia de sacolas. Agora, já tendo passado pela roleta, podia ouvir melhor as duas mulheres do banco alto, logo após o cobrador. Acomodou-se ali mesmo, represando um pouco os passageiros que entravam no lotação. A turma passava acotovelando Rita um pouquinho, para descontar, mas ela nem ligava. A viagem era longa e uma boa conversa dos outros ajudava muito a passar o tempo.

Carlinhos está lá, na luta dele. Ah, ele entrega de tudo que tem no aplicativo, principalmente pizza. Pensou em sair por causa daquele aborrecimento, mas acabou ficando. Difícil demais achar trabalho, infelizmente não tem muito como escolher. Você não soube não? Carlinhos foi entregar uma pizza que veio errada. Nada a ver com ele, mas o cliente ficou zangado, jogou uma conversa troncha que ele não podia ir embora e tinha de devolver o dinheiro, terminou chamando o menino de macaco. Essa gente é assim mesmo, uns sebosos. Eu fico com ódio! Sei que Carlinhos terminou dando uns tapas no homem, se atrasando para a entrega seguinte e ainda descontaram da corrida do bichinho. Ele tentou explicar tudo à dona da pizzaria, mas ela não quis conversa. Disse que cliente tinha sempre razão e ficou por isso mesmo. E tem mais, ainda falou da gente aqui do “Norte”: um pessoal muito devagar e ruim de aprender as coisas; bom mesmo era de onde ela vinha, das bandas do Rio Grande do Sul. Foi o que eu disse a ele: veio fazer o quê aqui então, porque não volta pra lá? Mas deixa. Aqui se faz, aqui se paga. Não viu a Juliette, aí, milionária, com carreata e tudo?

Quem tem filho, não tem sossego. Eu já vivia com medo dessa moto de Carlinhos, para cima e para baixo em todo canto. Quando não é entrega de motoboy, é passeando com a namorada. Agora fico também com medo de ele se meter noutra confusão e perder o trabalho. Além do mais, fiquei meio sentida, com essa história, sabe. A gente cria um filho numa luta danada, passa os valores, aí vem um desgraçado chamar de macaco e uma mizera descontar o salário. Se eu pudesse, dava era uma pisa em tudinho. Eu sei que não resolve, mas quando mexe com filho a gente vira onça. 

Era muito verdade, Rita pensou. Quando alguém mexia com Maria Clara, que também não lhe dava sossego, ela virava uma onça, mesmo. Levantou suas sacolas do chão sujo do transporte e, devagarinho, chegou no lugar que tinha vagado duas fileiras adiante. Já sentada, orgulhou-se do sonho de Clarinha ir para a faculdade. Sua filha era linda, inteligente e corajosa, que nem Juliette.

Foto: https://diariodamanhapelotas.com.br/site/transito-e-itinerario-de-onibus-serao-modificados-no-domingo/

domingo, 25 de abril de 2021

RITA NA LUTA - Casa de Família


    Continuo lá, com D. Laura. Os meninos crescidos, estudando, ficou melhor para mim. Nessa idade, você sabe, não dá mais para ficar correndo atrás de criança pequena. Já vou fazer o quê: quarenta e… sete. Não ria não, Aleide, jajá você também vai começar a esquecer. É tanta idade que a gente vai parando de contar. O tempo corre, também, repare que já faz mais de ano que a gente é amiga de ônibus, encontro marcado aqui, toda semana.

    D. Laura está bem, sim. Esse pessoal vive bem, por mais que não achem. Sempre tem um grande problema que para a gente é pequenininho, é ou não é? Eu bem queria os problemas desse povo. Inventou crise de pânico com a mania de limpeza dela, foi pra médico de cabeça e tudo. Não pode ver uma sacola de supermercado que começa a suar frio. Sobra sempre para mim. É um tal de água sanitária em maçaneta, passar pano na casa três vezes por dia, banho de álcool nas compras, um aperreio só. Hoje, mesmo, minha filha, não foi moleza, a casa estava uma bagunça, ainda bem que tinha lugar aqui pra sentar porque minhas varizes vão estourar.     Você acredita, Aleide, que dia desses sonhei que eu era D. Laura tendo um piripaque desses que ela tem de vez em quando? Eu estava na sala da casa dela, é uma sala meio cafona, mas cafonice organizada, de gente que tem dinheiro. É um tal de quadro de foto de família misturado com santo e time de futebol na parede, que nem em casa de pobre, mas cheio de moldura dourada, não sabe? E a mobília da avó dela: uma mesinha de centro de madeira com um jarro de flor natural, que ela manda comprar toda semana; com mais dois cinzeiros chiques pra ninguém fumar, que ela é asmática; e também tem um troço de madeira, alto, que não serve para nada, só pra apoiar um calendário da igreja dela, com a Virgem Maria olhando praquelas janelas de vidro nas paredes de madeira. “Rústico”, ela diz, D. Laura. Eu acho é brega, mesmo. Se eu tivesse dinheiro ia querer uma casa toda moderna, os móvi tudo novinho, jamais uns troços daqueles.     Pois eu estava lá, no sonho, bem sentada no sofá listrado, olhando para as flores, quando vi que o jarro branco da avó dela estava todo empoeirado, como se a empregada, que não era eu, lógico, tivesse esquecido de limpar. Aquela sujeira me descontrolava, subia um nervoso pelas pernas até a cabeça, eu começava a me tremer todinha. Eu caía no chão de tanto me tremer, quando acordei.      Trabalhar em casa de família não é fácil não, viu, Aleide? Tem uma hora que a gente endoida com as esquisitices deles. Vá com Deus, minha amiga, daqui a pouco chega meu ponto também. Só eu que falei hoje, depois você me conta as coisas do salão. Até pra semana, amém.

Foto de Ana Patrícia Almeida

sábado, 10 de abril de 2021

RITA NA LUTA - Culto

 Vamos comigo esse domingo, Bença. Eu passo na sua casa. O Pastor, você vai ver, ele é agraciado. Estou te falando, a gente sai do culto iluminado pela fonte do Senhor, é uma livração. Além do mais, o que você tem para fazer no domingo, mulher de Deus? Preste atenção no que o Pastor explicou semana passada: o descanso dominical é um repouso ativo, voltado à oração e ao louvor, não um convite para o ócio que só leva aos pecados da preguiça, da gula e da luxúria. Mente vazia, oficina do diabo, você bem sabe.

Os quarenta minutos de espera na parada de ônibus já eram castigo suficiente quando a vizinha de Rita chegou com essa conversa. Era do tipo que falava pegando nos outros, exigindo atenção exclusiva. Não tinha escapatória. Encarava as pessoas sem a mínima chance para o desvio dos olhos e quando sentia que o olhar estava parado, pensando em outra coisa, ela apertava as duas mãos nos ombros, segurava firme no braço ou pressionava levemente o queixo da pessoa com o polegar e o indicador. Por sorte ela não pegava o mesmo ônibus de Rita, mas por azar ônibus nenhum passava nessa manhã abençoada.

Irmã, agradeço demais o convite, mas eu já tenho a minha Igreja e por enquanto estamos orando pela internet. Foi até proibido fazer culto presencial, não foi? Com esse povo todo morrendo, Deus me livre ficar aglomerada, já basta esses ônibus lotados que a gente é obrigada a pegar. Eu prefiro o culto on line, mesmo, porque enquanto assisto já vou adiantando o almoço e fico logo livre pra dar o meu cochilo. Até porque esse domingo tem Paredão do BBB, eu acabo dormindo tarde e no outro dia estou aqui de novo esperando esse ônibus que não passa. É hoje que Dona Laura acaba comigo, atrasada desse jeito.

Seguiram-se dez minutos de sermão: como ela podia se somar às vozes contra a liberdade religiosa nesse mundo perdido onde os bares e os shoppings estão todos abertos e lotados; como ela podia alimentar sua alma da graça divina por meio de um computador; como era que uma mulher direita como ela podia assistir aquele programa do demônio cheio de depravações.

É que eu adoro a menina Juliette. Ela é daqui da Paraíba, sabia? E como sabia, se você não assiste? Ela não é rapariga nada, é uma menina muito inteligente e estudiosa. Minha filha Maria Clara está estudando para entrar na faculdade onde ela se formou, com aqueles professores maravilhosos que ela falou lá na televisão. Eu sei que no BBB estão se aglomerando também, mas pelo menos não tem risco pra mim, que tô assistindo, não é verdade? E é bom acompanhar um pouquinho da vida dos outros, já que não pode sair de casa. Graças a Deus chegou o meu ônibus. Até logo, Irmã, se cuide. Fique em casa e ore por mim, porque a patroa hoje vai estar furiosa.  

Foto:https://www.opovo.com.br/noticias/fortaleza/2018/03/menos-de-um-terco-das-paradas-de-onibus-de-fortaleza-tem-abrigo.html

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...