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quinta-feira, 6 de agosto de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA 20 - Monga on line

Sem a querida Festa das Neves, até a Monga precisou se adaptar. Providenciou logo um post para o Instagram, devidamente replicado no Facebook, no Whatsapp e no Twitter: "Prepare seu coração: vem aí a Monga on line!". 

Caprichou no visual, enfeitando sua cabeça de macaca com um lacinho vermelho e pintando a sua boca de moça com o mais sensual dos batons.

O público não tardou a lotar as salas virtuais para ver com os próprios olhos a medonha transformação da mulher para a macaca. Skype, Google Meet, Zoom, Jitsi, todas as plataformas ficaram pequenas para o enorme sucesso da nossa Monga on line. 

Tamanha foi a comoção que  no dia 5 de Agosto, aniversário da cidade e auge da bilheteria, a internet bugou. Um dia inteiro de pane na rede mundial de computadores, com epicentro identificado na cidade de João Pessoa, a aniversariante. 

Aqui o impacto foi menor, por causa do feriado, mas ao redor do mundo inúmeros foram os prejuízos: aulas canceladas, reuniões desmarcadas, encontros adiados. Até a Bolsa de Valores foi abalada pela nossa Mulher-macaca.

Por causa desse potencial destruidor, os especialistas estão  chamando o fenômeno de "King Kong da Pandemia". Nossa Monga, claro, se ofendeu. Logo ela, tão querida, tão enfeitada. Calma, Monga, o público é seu amigo!

domingo, 2 de agosto de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA - Décima Nona

Ali no jornal, como número, está bom. Não dói, não cheira, fica tudo certinho. Tão limpinhos, tão organizados, com camisa de botão...isso é que é ser número! Desfilam comportados diante dos nossos olhos acalentados pela boa matemática, já até preparados para os gráficos do dia seguinte. Assim é melhor.

Quando a tabela sai dali, começam as dificuldades. Aquele número, antes tão apresentável, passa a doer, a arder de febre. Tão bem contado, tão sistematizado, o número agora  quer sair do jornal e vir atrás de mim, descabelado, desembestado, sujo.

Como incomodam esses números quando escapam do seu devido lugar matemático!  Como eles fedem e causam a maior desordem...  Uns baderneiros, uns comunistas, esses números! Que fiquem nas tabelas, nos gráficos, não me venham com atestados! Não venham atrapalhar a minha aula com essa doutrinação ideológica sobre a vida real dos números. Eu já sei, já vi no jornal, já disse que sinto muito, agora me deixem em paz. Fora com essa ladainha sobre os números. Tenho metas a cumprir e não posso parar.

sexta-feira, 17 de julho de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA- Décima oitava

Ao tomar conhecimento da flexibilização da quarentena, meus sapatos se animaram. Um mundo de possibilidades voltou a se abrir para eles. Finalmente se encontrariam novamente com as tão queridas calçadas, com o concreto, com as rampas, degraus e ladrilhos, com outras cerâmicas além do chão dessa casa enfadonha onde estamos todos enclausurados há 4 meses.

As sandálias organizaram um Plano de Reabertura com detalhado rodízio em que elas próprias, os tênis, as alpercatas, as botas, os sapatos baixos e altos ganhariam a liberdade, dois pares por dia. As chinelas havaianas ficaram de fora e quiseram protestar, mas no fim reconheceram seus privilégios de livre trânsito pela casa e até mesmo uma ida ou outra à farmácia e ao banco.

Qual não foi a revolta quando lhes comuniquei que meus pés ficariam guardados ainda por um bom tempo! Recusaram meus argumentos, irredutíveis. Às favas com o isolamento social, gritaram alto."Lugar de calçado é onde ele quiser", "liberdade quando? Já!", "A rua é nossa casa!" e outras palavras de ordem tomaram a sapateira. Organizados com os cachorros, armaram um Plano que me fez pisar em cocô por três vezes consecutivas numa manhã só. 

As coisas estavam ficando fora de controle, e precisei entrar em acordo com a sapatada. Tiraram uma comissão para se reunir comigo, composta da sapatilha preferida no dia a dia do trabalho, o saltinho que arrasa nas festas e o tênis de corrida - as havaianas foram vetadas da comissão, por receio de golpe.


Ainda bem que a negociação foi um sucesso: duas voltas no quarteirão por dia. Uma pela manhã bem cedo, em companhia dos cachorros, outra à tardinha, na direção inversa. A paz, então, voltou a reinar na sapateira.

sexta-feira, 3 de julho de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA- Décima sétima


Foi -se junho. Tão querido, tão festivo, foi-se triste sem as sanfonas, sem as fogueiras nem os balões. 

Mas teve gente que não deu o braço a torcer: arrumou milho, canjica, pamonha e pipoca e chorou vendo os artistas cantando no computador. Muitos deles penando, sem o sustento do ano todo que conseguem nessa época, e por isso gente que brilha como Gilberto Gil fez uma festa junina pra arrecadar uma grana. 

Aqui em casa teimamos em fazer uma quadrilha. Sim, presencial! O marcador filmou tudo, enquanto puxava os anarriês e os alavantus. Passou a cobra, passou a chuva e teve até o serrote! 

Os seis quadrilheiros, contando com os cachorros, terminaram no chão, morrendo de rir.

quarta-feira, 17 de junho de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA- Décima Sexta


Não me venham com o jornal. São muitos os mortos, muito mais os desesperados, incontáveis os cretinos. 

Não, não posso com o jornal. Já mal suporto as dores do mundo sem ele.  Hospitais lotados; covas e mais covas; meninos baleados; meninos caindo do alto; todos os tipos de desgoverno... as notícias me dão náuseas. 

Além do mais, chove. Chove demais e são milhares os desabrigados não noticiados. Já me bastam as infiltrações e o mofo daqui de casa.

Desculpem, não tenho como. Uma noite inteira de pesadelos me aguardaria, e, maldormida, o meu dia estaria perdido. Por isso eu não posso. Sinto muito. Dou parte de fraca, o Jornal não é para mim. 

sexta-feira, 12 de junho de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA - Décima Terceira

Essa é boa: dia dos namorados remoto! Casais apaixonados separados por um vírus mortal, cada um em sua casa, namorando pela internet. 


Vamos admitir que há tempos se faz de um tudo pelas câmeras: nudes, Tinder, Sexlog, os infinitos sites de "conteúdo adulto" entre outras invenções engenhosas do mercado sexual. Sendo assim, o coronavírus não pode ser responsabilizado pelo amplo espectro das safadezas virtuais. Mas dia dos namorados on line foi demais.


Olhando pelo lado bom, sempre o há, você não terá que encontrar a melhor desculpa por não ter procurado o melhor presente. Também será possível economizar dinheiro e evitar grandes filas em cinemas e restaurantes. 

Quanto ao lado ruim, bem, é inevitável achar um pouco de graça.  Beijinhos molhados na tela do celular. Abraços virtuais. Taças de vinho brindando a distância. Vamos ver o mesmo filme ao mesmo tempo na Netflix?

CURTINHAS DA QUARENTENA- Décima Quarta

Nessa semana atravessamos o pico da epidemia. Daqui a uns 15 dias a situação deve melhorar. Marcamos aquele compromisso para o mês que vem, é garantido que vai dar certo! 

As expectativas da quarentena. Um estado permanente de espera, como um bebê encruado, que não nascerá ao cabo de nove meses. Poço sem fundo. Viagem longa cujo destino não chega. 

De quinzena em quinzena, estamos todos fartos de esperar. Mas a virulência não dá mostras de arrefecimento,  a despeito do nosso enfado. Mortos e mais mortos. Notícias ruins uma atrás da outra. Miséria,  racismo, roubalheira. Nada que o coronavírus tenha inventado, embora no momento pareça bem mais cruel e revoltante.

Ter de esperar está nos matando. Não esperar certamente nos matará muito mais.

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...