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domingo, 18 de outubro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N.°28 - Dia dos Professores

Se pelo menos hoje fosse feriado de verdade, eu poderia ficar 24h menos exausta. Ou teria mais tempo de preparar esse plano de aula de MMC e MDC, acho que as crianças não estão entendendo nada. 

Como é que se explica matemática a distância, me diga? Sem pegar na mão dos meninos e mostrar onde é que vai um e depois corta? Já tô vendo os números todos voando pelas linhas do caderno, eu tendo que baixar foto por foto e circular de vermelho, pra depois tudinho vir dizer que a mãe não lembrava do assunto. 

Só faltava mandarem fazer reforço com as mães desses meninos, valei-me nossa senhora, livrai-me desse mal que sem isso eu já não durmo direito. Esse povo querendo que a gente faça milagre, dando pitaco em tudo, entrando na minha aula pra perguntar porque menino saiu chorando. 

Ai meu coração a ponto de infartar, por que hoje não é feriado como antigamente? A gente ganhando maçã na véspera, a turma recitando poeminha de homenagem? Até o meu computador tá sem querer ligar, o microfone dando defeito, a conta da internet vencida há 5 dias e eu sem tempo de parar pra pagar, sem tempo de fazer xixi, uma aula atrás da outra, reuniões sem fim com a equipe pedagógica, treinamento disso e daquilo, um inferno de vida!

E ainda tem esse mínimo múltiplo comum que não entra na cabeça desses meninos de jeito nenhum! Já fiz esquema, já inventei música, já postei vídeo, e eles nessa de dizer que a mãe não se lembra. Por que não perguntaram aos pais, meu deus, cadê esses pais que não servem de nada na hora de ensinar os meninos? 

Engraçado que Dia dos Pais e Dia das Mães, assim maiúsculo, todo mundo acha sagrado, tudo que é propaganda garantindo a comemoração. Já dia dos professores, nem os parabéns a gente recebe mais. 

Os daqui de casa também sem entender nada dessas aulas on line, mas pelo menos eu obriguei a dar os parabéns para as professoras deles, fizeram cartinha com adesivo e tudo. Tem de ensinar a ter educação, antes de aprender o MMC e o MDC. 

Deixa eu passar esse café aqui pra ver se pego no tranco. Qual a mínima quantidade de pó de café que pode ser utilizada no total de 500g do pacote para que renda o máximo de dias durante a semana? Essa vai para a mãe da Ritinha, da próxima vez que ela entrar na minha aula perguntando porque a menina saiu chorando.

domingo, 11 de outubro de 2020

A live das Crianças

Eu não vou ir não, mamãe, detesto essas lives. É tudo fingimento, eles não falam com a gente de verdade. Pode falar de volta, pra ver se eles respondem. Não, não estou com saudade da professora. Eu sei que tá chegando o dia das professoras, mas agora é o dia das crianças e isso daí não tem jeito de festa.  

Prefiro ficar aqui brincando sozinho, mesmo, em vez de tentar brincar pelo computador.  Você já tentou brincar pelo computador, mamãe?  Não dá certo. Dá certo jogar, postar vídeo no TikTok, assistir no YouTube. Mas brincar, não tem como. 

Eu quero ir na Pracinha com meus amigos. Na praia, então.  Tá vendo, não pode nada, é uma merda, esse negócio de coroavírus. Falo, sim, merda, merda, merda! Ah, por favor, por favorzinho...Prometo não falar mais palavrão, prometo tudo que você quiser. A gente vai  de máscara e leva aquele negócio das "medidas necessárias"... 

Mas por que? Porque não não é resposta! Eu vi no jornal, tá todo mundo indo na praia e no shopping. É você que não deixa, mamãe. Então fique você assistindo essa live ridícula, eu já disse que não quero. E no parquinho pode?

sábado, 3 de outubro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA Nº 26 - Trabalho Remoto

Bem que eu achei muito chique quando a minha amiga Suzana, há uns três anos atrás, contou que ia entrar no regime de Home Office. Agora assim, dizia ela, tem de tomar cuidado para não misturar demais a casa com o trabalho. Tem de ter um escritório, nada de levar o trabalho para o quarto; tem de tomar banho e se aprontar antes de bater o ponto, nada de trabalhar de pijama; tem de cuidar de encontrar os amigos, também, porque senão a pessoa fica muito isolada. 

Na ocasião eu invejei demais a vida perfeita dessa da minha amiga. Sem trânsito, sem salto alto, sem encontrar aquele colega de trabalho que fala cuspindo nem outras inúmeras chateações de ter de viver nesse mundo de sair de casa todos os dias úteis com o único e obstinado desejo de voltar umas 10h depois. Não me inveje, trabalhe; pode ter pensado a minha amiga com a sabedoria exata das placas dos caminhões. 

Eis-me aqui, aos sete meses de uma pandemia. Aborrecida. Exausta. Aplacada pelo mesmo trabalho remoto que um dia invejei como um sonho bom. De nada me valeram os conselhos da minha amiga. Até que eu tenho um escritório, mas permanecer ali concentrada para qualquer coisa são outros quinhentos. Quando não me interrompem o cansaço ou o desânimo, é a minha filha a xingar toda a escola on line dela. 

Ao contrário do conselho, ele, o trabalho, está sempre comigo por toda a casa: na cozinha, na sala e até no banheiro. Aliás, atire a primeira pedra a cara leitora ou o estimado leitor que não tiver atravessado a rica experiência de satisfazer a necessidade de número dois no meio de uma reunião importante. Câmera e microfone desligados, e esse delicioso alívio vai para o nosso querido chefe!   

Além do mais, só o que fiz nesses meses foi trabalhar de camisola e passar o dia inteirinho com ela. Não falem da minha camisola, ela é ótima! Macia, arejada, e ainda esconde de mim os quilos sobressalientes da pandemia. Muito prático: a gente acorda, pula da cama, prende os cabelos e vai trabalhar. Quando tem mais coragem, lava o rosto. Lá pra depois do almoço, após vencer o combate contra a pia lotada, a gente toma um banho e troca de camisola. 

Por último, a parte de encontrar os amigos depois do trabalho. Aquilo de estar passando bem pertinho da sua casa então venha tomar um café; essa coisa de brindar a pouca alegria da vida numa mesa de bar qualquer. É quando tenho mais vontade de ser normal e esquecer o compromisso de preservar a espécie em extinção das pessoas isoladas. Deixemos mais uma aos caminhões: jamais inveje o que não conhece muito de perto.  


domingo, 27 de setembro de 2020

A melhor hora da praia

Arrumou-se toda feliz, a canga combinando com o biquíni, o chapéu bem assentado da mesma cor dos óculos escuros, as cadeirinhas de praia empoeiradas debaixo de um braço e o outro ocupado com a esteira. Três cervejas e uma garrafa de água de côco dentro do isopor, iludidas pelo pouco gelo que lhes jogaram por cima. 

A melhor hora da praia. A turma toda já satisfeita de tanto sol e brisa, devidamente voltados pra casa. Com certeza acharia uma sombra debaixo da qual passaria a tarde sentada, lendo um livro em frente ao mar. A trilha sonora das ondas já embalava seus ouvidos no sonho bom da tarde de domingo.

Qual não foi o desapontamento de sequer poder descer do carro. Simplesmente não havia espaço em toda a praia. Turmas e mais turmas, a do futebol, a da farofa, a da campanha eleitoral, todo mundo igualmente merecedor de um descanso dominical. Aliás, quem já viu uma ideia dessas, achar um pedacinho vazio de paraíso no meio de sedentos da vida normal, essa ilha deserta arrodeada de álcool em gel no meio do oceano Atlântico na parte da Paraíba.

O jeito foi dar meia-volta e fazer do jardim de casa, mesmo, uma praia. Vocês já ouviram uma playlist do Spotify com os barulhos das ondas do mar?

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domingo, 20 de setembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA n.24 - Temporada de Chuvas Isoladas

Sabe quando uma sucessão de acontecimentos ruins vão nos chovendo um atrás do outro, mal a pessoa se seca e lá vem outro banho de água fria de novo? Parece que faz sol em toda a cidade, mas uma nuvem carregada não sai de cima de nós.

Pois está aberta a Temporada de Chuvas Isoladas por aqui. De Isolada, mesmo, só tem o nome, porque traz consigo a maior aglomeração. Não tem álcool em gel que dê jeito: de repente a gente se vê em velório, em delegacia e cheio de gente dentro de casa.

Primeiro veio a perda de um grande amigo. Indizíveis a tristeza e a revolta, dessas marcas que a vida vai cuidando com o tempo, bem devagarinho. Às favas com o isolamento social: foi muito abraço e pouco distância. 

Poucos dias depois, a casa pegou fogo. Uma faísca elétrica ardeu o quarto da menina e em pouco tempo havia uns quinze vizinhos sem máscara arriscando a vida por nós. Afora a fumaça, ficamos todos bem. Menos as roupinhas da dona do quarto, que queimaram todas. Em compensação, ela renovou o quarda-roupa inteiro, o que, por sua vez, nos levou ao shopping depois de 6 meses. 

No mesmo dia, podem acreditar, a minha mãe foi roubada e fizeram uma festa com os cartões de crédito. Pior que o prejuízo, só mesmo o 0800 da Caixa Econômica Federal. E lá fomos nós à Central de Polícia, onde ganhamos o chuvisco-bônus da viagem perdida, voltando sem B.O. nenhum porque, você sabe, era fim de semana e ali somente flagrante com violência. 

O desisolamento ainda continuará com o retorno à delegacia, a ida ao banco e a reforma do quarto incendiado. Mas esperamos de coração que a Temporada de Chuvas Isoladas tenha se encerrado. 


quarta-feira, 9 de setembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N. 23 - Já chega

 Vocês aí, seus Normais: ninguém aguenta mais esse mundo de vocês. Está simplesmente insuportável. De Covid ou de tristeza as pessoas estão indo embora daqui. 

Vocês, aliás, já morreram e não sabem. São todos feitos de morte: carros importados, condomínios de luxo onde ninguém mais pode entrar, restaurantes cujos pratos custam um salário inteiro. Sem contar seus golpes, mais velhos que a fome, reeditados hoje no modelo remoto. Que se exploda esse mundo de vocês! 

Já é Setembro, amarelo. Temos sol, praia, feriado, flores, passarinhos e mesmo assim não estamos suportando a sujeira e o sofrimento por todos os lados.

Nós estamos fartos, eu, meus amigos e a senhora que passa de porta em porta vendendo as empadinhas. Decidimos acabar com essa podridão e nada nos fará desistir, porque esse mundo normal de vocês já não presta faz é tempo. 


sábado, 5 de setembro de 2020

CURTINHAS DA QUARENTENA Nº 22 - Dias Iguais

O fenômeno dos Dias Iguais, embora anterior à pandemia, parece ter se intensificado ao longo do ano de 2020. Trata-se de dormir e acordar preso aos mesmos acontecimentos, que se repetem quase sem variações perceptíveis. Duvidamos do calendário, pasmos, incrédulos de ter vivenciado dois dias diferentes. Quando damos por nós, o mês acabou sem explicações, parecendo impossível que todo esse tempo de 31 dias distintos entre si tenha sem passado. 

A cozinha é a principal responsável pela estranha sensação, pois entre o café da manhã, o almoço e a janta, pouca coisa acontece de novo sobre a terra dentro de uma casa. Vejamos o caso do cuscuz: misturar um pouco d´água à massa amarela com uma pitada de sal, aguardar o descanso e deixar cozinhar por uns quinze minutos. Todo dia é o mesmo preparo, o que pode ser, logo de manhã cedo, fonte de confusão com o dia anterior.

Os jornais, com suas notícias de sempre, também em muito contribuem para a perturbação dos Dias Iguais. Variam muito pouco as péssimas notícias de um dia para o outro, embora de semana em semana tenhamos quase sempre um novo escândalo e uma nova média móvel no número de mortes, de modo que podemos passar a semana inteira praticamente presos em um dia só, considerando apenas a repetição do noticiário.

Não fosse um passarinho ou outro que aparece na janela, ora um bem-te-vi, ora um beija-flor nos lembrando que a vida segue teimosa, difícil seria acreditar que o tempo está passando de verdade.   

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...