Páginas

domingo, 20 de dezembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N° 35 - Papai Noel on line

"Querido Papai Noel, esse ano eu quero um monte de presentes porque fui muito boazinha. Não fui no shopping, nem na praia, nem pra canto nenhum; eu também não quero nunca mais ir pras aulas on line". 

Meu whatsapp agora está lotado de mensagens como essa. Como é que se responde a isso, meu Deus do céu? Não sei por que cargas d'água inventei de trabalhar de Papai Noel no meio da doidice dessa pandemia. 

Bem que a psicóloga disse, no curso on line da Escola de Papai Noel, que receberíamos pedidos estranhos e tínhamos de estar preparados para os desejos pouco convencionais das crianças esse ano. Uma me pediu máscaras de presente, mais nada, disse que a dela estava frouxa e ela vivia com medo por causa disso. Várias pedem a cura para o coronavirus junto com os presentes. Teve um menino que foi direto ao assunto em sua carta de linha única: "Oi Papai Noel, quero a vacina e um X-box". 

Pelo menos com as mensagens eu tenho algum tempo para pensar e posso pedir ajuda. Difícil mesmo é nas sessões on line, quando as crianças pedem essas coisas e eu tenho que responder ali, na lata; ou então tenho de vê-las chorando por não ganhar um abraço. Ainda assim, prefiro esse contato do que o contato nenhum das lives ou das gravações do totem, horas e horas no estúdio fingindo interagir com as crianças. 

O pior de tudo é que, mesmo com todo mundo morrendo de novo, o povo não pára de lotar o shopping. Querem morrer comprando, agarrados aos produtos. Coisa mais esquisita esse tempo. E olha que eu já vi de tudo com esses 65 anos nas costas. 





domingo, 13 de dezembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N°34 - Às compras

Já não havia mais arroz nem cuscuz há três dias, o café acabaria dali a dois turnos, mas foi com o fim do papel higiênico que a verdade se impôs: a feira não poderia mais ser postergada.

Ir ao mercado nunca foi o meu forte. Essas coisas mundanas do comer e do limpar, grande prisão do cotidiano, desde sempre roubaram a minha paz. Depois da pandemia, no entanto, as compras se transformaram de vez num inferno.  

Mais se parece com uma missão de guerra. Armado de máscara e álcool em gel você sai para a batalha, corajoso, ciente dos riscos. Nunca sem uma lista de compras, dessa vez organizada pelas seções do supermercado, para evitar a cena clássica de atravessar todos os corredores de volta em resgate de um produto esquecido lá para as bandas da entrada.

Ao entrar no supermercado,  você lamenta profundamente a presença de toda as outras pessoas, desumanizadas em sua mente como potenciais transmissores de coronavirus. Acabou-se aquela intimidade dos corredores,, aquelas avaliações sobre o sabão que lava a roupa do mesmo jeito pela metade do preço, a indignação compartilhada pelo quilo de feijão custar nove reais. Nada disso, agora é foco na missão: cumprir a rota das prateleiras, manter distância e chegar o quanto antes, são e salvo, em casa. 

Na volta para casa você nem se anima mais, pois sabe que os seus problemas estão apenas começando. Terá de tirar a roupa do lado de fora, na área de serviço, correndo o risco de dar lance para a vizinhança. Borrifar álcool 70 em todas as sacolas e deixa agir enquanto toma banho. Desinfetado,  volta à última luta: o banho das compras. Experiente em banho de menino e banho de cachorro, o banho dos produtos me deixa até hoje estarrecida. 

Feliz por estar vivo, você encontra as últimas forças para guardar tudo em seus devidos lugares. Toma um copo d'água. Passa um café. E reza em prol da multiplicação da feira na dispensa para que você nunca mais precise passar por isso.



domingo, 6 de dezembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N°33- Escapulidas

Sei que ninguém aguenta mais esse papo de quarentena e isolamento social.   Mas a pandemia ainda não acabou, o que se há de fazer? Nós, os Isolados, continuamos bem guardados em casa. 

Devo confessar, no entanto,  que tenho lá minhas escapulidas. Peço que não se zangue,  cara leitora, e que não me julgue, estimado leitor. Atire a primeira pedra aquele que, no meio de uma pandemia, nunca escapuliu.

Não falo do protesto ao qual eu tive de ir, nem das providências policiais e bancárias de quando a minha mãe foi roubada. É outro o departamento.

Vou logo confessar tudo de uma vez, do menos para o mais grave. Primeiro que durante a feira, às vezes, eu me aproveito e passeio no supermercado. Entre uma prateleira e outra, eu me distraio com itens coloridos, que eu nunca vou comprar, só pelo sabor de estar mais um pouco fora de casa. Segundo: dia desses, voltando da farmácia, eu acabei parando em um café. Ele surgiu na minha frente, luminoso, recém-inaugurado, perto da minha casa. Eu não pude resistir. 

Terceiro, e o mais grave, pelo que desde logo peço a caridade de vosso perdão. Não é tanto pelas medidas sanitárias, que foram todas preservadas. O pecado residiu na luxúria. No desfrute de tanta felicidade numa só escapulida, enquanto meus companheiros isolados padeciam trancafiados em suas casas numa tarde tão bonita.

Eu ganhei as ruas de novo, em cima da minha bicicleta. A padroeira da cidade me saudou quando passei em frente à sua catedral. Confraternizei com os irmãos venezuelanos que celebravam um culto no Ponto dos Cem Réis. O vento acariciou meu rosto entre as árvores da Praça Rio Branco. Desci para a Lagoa, natalina, festejante.

Do alto do meu êxtase, pensava: eu amo a rua, a rua é a minha casa, um dia eu volto pra rua de vez. Um dia, próximo, mais perto do que longe. Um dia em que eu poderei abraçar as pessoas, apertar as mãos delas, beijar-lhes as bochechas. Será o dia mais feliz da minha vida.

Enquanto isso, continuarei em casa. Escapulindo, de vez em quando, que ninguém é de ferro.

domingo, 29 de novembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA Nº 32 - Democracia Remota

Não estou dizendo que não é pra ir votar. Daqui a pouco eu vou lá, sim, apertar no botão a minha pouca escolha entre o péssimo conhecido de sempre e a nova tragédia. Certamente estaria mais animada se votasse em São Paulo, em Porto Alegre, ou mesmo em Recife, mas aqui em João Pessoa a fedentina das cabines de votação se poderá sentir de longe, muito além das zonas eleitorais. 

Ainda assim, jamais deixaria de votar, mesmo com medo da pandemia. Me impede a consciência das décadas em que meus pais não puderam fazê-lo, eles e seus amigos que pagaram com a própria vida por isso. A pouca escolha que nos resta nas urnas, afinal, é o outro lado da nossa pouca disposição em brigar pelo que nos cabe. Essa preguiça de lutar pelo que é nosso, essa covardia de aceitar as coisas mais absurdas como se fossem normais, essa cretinice de se apropriar individualmente daquilo que é comum a todo mundo. 

Só quero dizer que estou farta dessa pouca democracia. Essa democracia remota, de apertar um botão de dois em dois anos e só. Farta dessa cidadania passiva, que, quando muito, faz um post no Instagram. Cansada de mandar ofícios e pedir licença, de saco cheio da paz.

Eu quero é gritar, de máscara, junto com o povo preto na frente do Carrefour. Gritar bem alto que mataram um homem e por isso não podem continuar fazendo compras como se nada tivesse acontecido. Atear  fogo, mesmo, no poder desses machos ricos e brancos que passam por cima de tudo que não é deles. Quero revidar todas as muitas vezes em que somos atingidas pelo machismo, vingar as mortes das mulheres e todas as pessoas que sofreram por amar conforme sua própria vontade. Já chega, também, desse mundo em que o lucro vale mais do que as pessoas.

Por isso eu vou mesmo votar, daqui a pouco, de máscara, caneta e álcool em gel. Mas não me contento com isso.     

domingo, 22 de novembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N°31 - Consciência Branca

Claro que sou contra bater numa pessoa até a morte, mas precisava mesmo daquele vandalismo todo que mostrou na televisão? Correria, confusão, estilhaços por todos os lados, isso lá é coisa de cidadão de bem? Uns marginais, uns maconheiros, coitada daquela gente dentro do supermercado que só queria fazer sua feira em paz.

Não vá dizer que sou racista, tudo agora é esse mimimi. Logo eu, que trato tão bem o Seu Valdemar, no Natal sempre dou um panetone de chocolate pra ele levar pra ceia depois que larga lá do prédio. Eu perguntei pra ele, viu, se ele achava isso mesmo que estão dizendo, que o rapaz foi vítima de racismo. Seu Valdemar, um negro muito inteligente e ponderado, também concordou que aquela tristeza poderia ter acontecido com qualquer um de nós,  independentemente da cor da pele. Aliás,  quer dizer que agora tem raça no Brasil? Não é tudo raça humana, todo mundo não é igual? Vejo todos verdes e amarelos, como o Presidente, e Seu Valdemar também pensa assim. Eles mesmos são preconceituosos, a turma do mimimi. 

Outra coisa: essa tal consciência negra, eu não entendo. Tem um consciência branca, também? Porque daqui a pouco quem vai ficar sendo vítima de preconceito somos nós, se não tomar cuidado. Não tem pra quê, gente, a escravidão já acabou há trocentos anos, vamos ficar nessa, cultivando o ódio? 

Os guardas erraram, sim, mas o que o Carrefour tem a ver com isso, meu Deus? Deixem o supermercado pra lá, como eu vou poder ir às compras em segurança com meu cachorrinho se podem tacar fogo lá dentro a qualquer momento? 

domingo, 8 de novembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA N° 30 - Nós tivemos de ir

Eu juro que não queria, mas tive de ir. Vocês sabem que eu estava quieta no meu canto, isolada. Por mim, teria ficado em casa com meu trabalho remoto e meus pratos pra lavar. Mas fui obrigada.

Sim, tinha muita gente. Como é bom, gente! Aqueles toques de cotovelo, aqueles sorrisos debaixo das máscaras, aqueles olhares de como é bom te ver por aqui na luta de novo. Sobrevivemos, logo lutamos.

Mas fomos todos obrigados. Fomos acordados de manhã logo cedo, não podemos mais nem dormir. Estava lá, inscrito na madrugada: INTERVENÇÃO! Vocês não tem escolha, não  podem mais, não deixamos e pronto! Como assim, não deixam e pronto? 

Por isso tivemos de ir. Fomos lá, gritar que não aceitamos. Se pensam que é assim, estão muito enganados. Esses cretinos! Agora sim, vão ver a balbúrdia. 

Já aceitamos demais, demais mesmo.  Já chega das suas genitálias podres quando invadem os nossos debates. Não estamos interessados nisso, queremos dialogar, conhecer, construir. Mas estão nos perseguindo, nos desprezando, acabando conosco. 

Ainda mais agora, todo mundo sem poder sair de casa. Covardes! Pois arriscamos a própria vida, porque não tem vida que preste sem escolha. Foi por isso que fomos, e iremos de novo. 

domingo, 1 de novembro de 2020

CURTINHA DA QUARENTENA Nº 29 - Mas a pandemia já não acabou?

Maldita hora que eu inventei de passar mal! Nunca mais eu durmo, depois do que vi e ouvi por aqui nesse hospital. Pessoas se internando aos montes, vidas se acabando de novo, trabalhadores exaustos e fartos de correr riscos. Mistura no fluxo de pacientes com a dita cuja e pessoas como eu, dando sopa com a minha pouca saúde no hospital. 

Só lembrei daquela moça na padaria, chacotando a minha distância dela na fila do pão: "Tudo isso é medo de covid, é?" Era. E não era pra menos. Os corajosos da vida normal, não posso com eles. Eu que não vou à praia, ao shopping, nem à mesa do bar. Mas precisei ir ao veterinário, que quis me atender sem máscara. O senhor por favor não me leve à mal, mas não haveria uma máscara no estabelecimento para o senhor utilizar? É só por causa da pandemia, mesmo, vá me desculpando a intromissão. 

"Mas a pandemia já não acabou, não, senhora?", perguntou o encanador, noutra situação. Eu parada diante dele, chocada com a pergunta, sem saber como responder, antes de me faltar o ar de vez quando, na sequência, ele me disse animado: "É... o Brasil tá se ajeitando. O presidente está melhorando muito o Brasil aos pouquinhos"... Eu soube o que dizer à moça da padaria e ao veterinário, mas não soube o que dizer a Seu Cícero. Tem horas que eu não sei mais como fazer.  

Me disseram no hospital que estão abafando tudo por causa das eleições, esperando só a votação acabar pra soltar as notícias e quem sabe fechar tudo de novo. Para arrematar a conversa, Seu Cícero me indicou um candidato a vereador, um sujeito muito prestativo que sempre ajudava as pessoas da comunidade. "Eu vou dar uma olhada, viu, Seu Cícero, obrigada". Às vezes posso, às vezes não posso com o mundo. 

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...