Elas me caem de surpresa, não sei de onde. Quando menos espero, pulam em forma de contos, pequenas crônicas ou controversas opiniões. Às vezes nem posso com elas, mas não querem nem saber: as palavras saltam das minhas mãos. Se não agradam, a culpa é toda delas.
domingo, 20 de dezembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA N° 35 - Papai Noel on line
domingo, 13 de dezembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA N°34 - Às compras
Já não havia mais arroz nem cuscuz há três dias, o café acabaria dali a dois turnos, mas foi com o fim do papel higiênico que a verdade se impôs: a feira não poderia mais ser postergada.
Ir ao mercado nunca foi o meu forte. Essas coisas mundanas do comer e do limpar, grande prisão do cotidiano, desde sempre roubaram a minha paz. Depois da pandemia, no entanto, as compras se transformaram de vez num inferno.
Mais se parece com uma missão de guerra. Armado de máscara e álcool em gel você sai para a batalha, corajoso, ciente dos riscos. Nunca sem uma lista de compras, dessa vez organizada pelas seções do supermercado, para evitar a cena clássica de atravessar todos os corredores de volta em resgate de um produto esquecido lá para as bandas da entrada.
Ao entrar no supermercado, você lamenta profundamente a presença de toda as outras pessoas, desumanizadas em sua mente como potenciais transmissores de coronavirus. Acabou-se aquela intimidade dos corredores,, aquelas avaliações sobre o sabão que lava a roupa do mesmo jeito pela metade do preço, a indignação compartilhada pelo quilo de feijão custar nove reais. Nada disso, agora é foco na missão: cumprir a rota das prateleiras, manter distância e chegar o quanto antes, são e salvo, em casa.
Na volta para casa você nem se anima mais, pois sabe que os seus problemas estão apenas começando. Terá de tirar a roupa do lado de fora, na área de serviço, correndo o risco de dar lance para a vizinhança. Borrifar álcool 70 em todas as sacolas e deixa agir enquanto toma banho. Desinfetado, volta à última luta: o banho das compras. Experiente em banho de menino e banho de cachorro, o banho dos produtos me deixa até hoje estarrecida.
Feliz por estar vivo, você encontra as últimas forças para guardar tudo em seus devidos lugares. Toma um copo d'água. Passa um café. E reza em prol da multiplicação da feira na dispensa para que você nunca mais precise passar por isso.
domingo, 6 de dezembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA N°33- Escapulidas
domingo, 29 de novembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA Nº 32 - Democracia Remota
Não estou dizendo que não é pra ir votar. Daqui a pouco eu vou lá, sim, apertar no botão a minha pouca escolha entre o péssimo conhecido de sempre e a nova tragédia. Certamente estaria mais animada se votasse em São Paulo, em Porto Alegre, ou mesmo em Recife, mas aqui em João Pessoa a fedentina das cabines de votação se poderá sentir de longe, muito além das zonas eleitorais.
Ainda assim, jamais deixaria de votar, mesmo com medo da pandemia. Me impede a consciência das décadas em que meus pais não puderam fazê-lo, eles e seus amigos que pagaram com a própria vida por isso. A pouca escolha que nos resta nas urnas, afinal, é o outro lado da nossa pouca disposição em brigar pelo que nos cabe. Essa preguiça de lutar pelo que é nosso, essa covardia de aceitar as coisas mais absurdas como se fossem normais, essa cretinice de se apropriar individualmente daquilo que é comum a todo mundo.
Só quero dizer que estou farta dessa pouca democracia. Essa democracia remota, de apertar um botão de dois em dois anos e só. Farta dessa cidadania passiva, que, quando muito, faz um post no Instagram. Cansada de mandar ofícios e pedir licença, de saco cheio da paz.
Eu quero é gritar, de máscara, junto com o povo preto na frente do Carrefour. Gritar bem alto que mataram um homem e por isso não podem continuar fazendo compras como se nada tivesse acontecido. Atear fogo, mesmo, no poder desses machos ricos e brancos que passam por cima de tudo que não é deles. Quero revidar todas as muitas vezes em que somos atingidas pelo machismo, vingar as mortes das mulheres e todas as pessoas que sofreram por amar conforme sua própria vontade. Já chega, também, desse mundo em que o lucro vale mais do que as pessoas.
Por isso eu vou mesmo votar, daqui a pouco, de máscara, caneta e álcool em gel. Mas não me contento com isso.
domingo, 22 de novembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA N°31 - Consciência Branca
domingo, 8 de novembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA N° 30 - Nós tivemos de ir
Eu juro que não queria, mas tive de ir. Vocês sabem que eu estava quieta no meu canto, isolada. Por mim, teria ficado em casa com meu trabalho remoto e meus pratos pra lavar. Mas fui obrigada.
Sim, tinha muita gente. Como é bom, gente! Aqueles toques de cotovelo, aqueles sorrisos debaixo das máscaras, aqueles olhares de como é bom te ver por aqui na luta de novo. Sobrevivemos, logo lutamos.
Mas fomos todos obrigados. Fomos acordados de manhã logo cedo, não podemos mais nem dormir. Estava lá, inscrito na madrugada: INTERVENÇÃO! Vocês não tem escolha, não podem mais, não deixamos e pronto! Como assim, não deixam e pronto?
Por isso tivemos de ir. Fomos lá, gritar que não aceitamos. Se pensam que é assim, estão muito enganados. Esses cretinos! Agora sim, vão ver a balbúrdia.
Já aceitamos demais, demais mesmo. Já chega das suas genitálias podres quando invadem os nossos debates. Não estamos interessados nisso, queremos dialogar, conhecer, construir. Mas estão nos perseguindo, nos desprezando, acabando conosco.
Ainda mais agora, todo mundo sem poder sair de casa. Covardes! Pois arriscamos a própria vida, porque não tem vida que preste sem escolha. Foi por isso que fomos, e iremos de novo.
domingo, 1 de novembro de 2020
CURTINHA DA QUARENTENA Nº 29 - Mas a pandemia já não acabou?
Maldita hora que eu inventei de passar mal! Nunca mais eu durmo, depois do que vi e ouvi por aqui nesse hospital. Pessoas se internando aos montes, vidas se acabando de novo, trabalhadores exaustos e fartos de correr riscos. Mistura no fluxo de pacientes com a dita cuja e pessoas como eu, dando sopa com a minha pouca saúde no hospital.
Só lembrei daquela moça na padaria, chacotando a minha distância dela na fila do pão: "Tudo isso é medo de covid, é?" Era. E não era pra menos. Os corajosos da vida normal, não posso com eles. Eu que não vou à praia, ao shopping, nem à mesa do bar. Mas precisei ir ao veterinário, que quis me atender sem máscara. O senhor por favor não me leve à mal, mas não haveria uma máscara no estabelecimento para o senhor utilizar? É só por causa da pandemia, mesmo, vá me desculpando a intromissão.
"Mas a pandemia já não acabou, não, senhora?", perguntou o encanador, noutra situação. Eu parada diante dele, chocada com a pergunta, sem saber como responder, antes de me faltar o ar de vez quando, na sequência, ele me disse animado: "É... o Brasil tá se ajeitando. O presidente está melhorando muito o Brasil aos pouquinhos"... Eu soube o que dizer à moça da padaria e ao veterinário, mas não soube o que dizer a Seu Cícero. Tem horas que eu não sei mais como fazer.
Me disseram no hospital que estão abafando tudo por causa das eleições, esperando só a votação acabar pra soltar as notícias e quem sabe fechar tudo de novo. Para arrematar a conversa, Seu Cícero me indicou um candidato a vereador, um sujeito muito prestativo que sempre ajudava as pessoas da comunidade. "Eu vou dar uma olhada, viu, Seu Cícero, obrigada". Às vezes posso, às vezes não posso com o mundo.
A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida
Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/ Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...
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