Páginas

sábado, 4 de junho de 2022

RITA NA LUTA - O espetinho de Rita

 

Digaí, comadre, vai querer de quê hoje?

Manda dois de frango e um queijo assado, Ritinha, pra começar. Quero uma gelada também, que dia de sexta a gente fica animada!

Taci batia ponto no espetinho de Rita toda sexta no finalzinho da tarde. Descia do ônibus, voltando do trabalho, e já ficava por lá. Às vezes chegava mais cedo e ajudava a montar o carrinho, agrupando os espetos de acordo com o sabor ao lado da brasa: carne, frango, queijo, coração de galinha e até camarão. Taci deu a maior força para abrir o Espetinho de Rita. Com aquele jeitinho de quem não queria se meter, se metendo, fez a cabeça da amiga para que ela desistisse de emprestar dinheiro a Paulão Olhos Azuis, e aplicasse num negócio próprio. Ainda bem. O espetinho era um sucesso, todo mundo já descia do ponto sentindo aquele cheirinho bom, não tinha como resistir. Só quem não gostou foi o traste do Paulão, que foi-se embora de novo; mas dessa vez, Rita nem ligou. 

No começo, ficou com medo de sentir falta das amizades no busú. Mas logo viu que ali, bem em frente à parada, aproveitava a companhia das pessoas do mesmo jeito. E o melhor de tudo: bem pertinho de casa. Não precisava mais acordar cedo e se arrumar correndo pra passar quase uma hora dentro do ônibus, sem contar o tempo da espera e da volta, já cansada, com as varizes doendo. 

E agora que sua filha Clarinha tinha entrado na Faculdade, era tanto passeio, um tal de levar a mãe pro cinema, pra teatro, passear no parque, com o espetinho Rita tinha o horário mais flexível pra aproveitar a vida um pouco, também.

Além do mais, no espetinho podia ouvir as conversas dos outros por muito mais tempo, ninguém cortava uma fofoca no meio porque chegava o ponto de descer. Todo mundo sentadinho, organizado, falando da vida alheia enquanto comia um espetinho bem gostoso, com uma farofa da melhor qualidade. Assim, Rita continuava muito bem informada sobre a vizinhança. Ela nem precisava mais fingir que não estava ouvindo, porque a turma já chegava contando as coisas pra ela ouvir, mesmo.  

Levou os espetinhos de Taci e sentou-se um pouco com ela. Contou da viagem que ia fazer com Maria Clara, usando o dinheiro das horas-extras de dona Laura. As passagens já estavam compradas. De repente, chegou um monte de gente atrás de espetinho, e Rita foi atender, toda animada. 


Foto: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/10/venda-de-churrasquinho-de-rua-e-autorizada-por-lei-no-rio.html

domingo, 15 de maio de 2022

RITA NA LUTA - Olhos Azuis




Faça isso não, Rita mulher. Abre esses olhos. Tu não acha estranho essa bença aparecer logo agora? Uma luta danada pra tu ganhar esse dinheiro, quase perde esses anos todos de serviço, pra agora vir me dizer que vai dar tudo de mão beijada prum sujeito que reapareceu do nada, direto das cinzas do passado, justamente agora? Taci tinha razão. Rita meditava sobre as palavras dela enquanto observava pela janela do ônibus aqueles montes de carros parados no trânsito da manhã. 

Já estava a caminho do banco para sacar o dinheiro que Paulão pedira depois de quinze anos de sumiço. Seus olhos azuis ainda a enfeitiçavam, como na primeira vez que se viram. Desde então, Rita permitiu que a vida virasse uma grande bagunça. Paulão praticamente se mudou para a casa dela, e de repente ganhou uma espécie de marido-filho. Rita levantava cedo, fazia o café, acordava Paulão com cosquinhas. Os dois riam, ela saía para trabalhar e ele ficava em casa sem fazer nada. Rita não ligava, no começo. Mas Clarinha começou a reclamar que não tinha sossego para estudar, que o homem passava o dia assistindo televisão no volume máximo e andava o dia todo só de cueca pela casa. Depois disso, não deu nem um mês, ele sumiu. Escafedeu-se. Clarinha acendeu velas e pagou promessas. Rita, contudo, esperava por ele toda chorosa pelos cantos.

Depois de quinze anos sem dar notícias, Paulão reaparecia exatamente na semana em que a Justiça liberava o FGTS, as horas-extras e as férias atrasadas de Rita, após ser inocentada no processo criminal da morte de dona Laura. Doutor Felipo, o advogado que Taci arranjou, tinha acabado de explicar tudo bem direitinho ao telefone quando Paulão bateu na casa dela. Ô de casa. Rita ficou branca, azul e amarela, parecia ter visto um fantasma diante do homem que jamais esquecera. Ele veio com uma história de que tinha saído às pressas, fugindo de uma dívida que vieram cobrar, e de tanta vergonha, afinal, o que Rita pensaria dele, achou melhor desaparecer. Que nunca deixara de pensar nela e finalmente resolvera voltar. A dívida, porém, continuava, e havia crescido. Ele resolvera ter coragem, desta vez, para pedir-lhe o dinheiro emprestado.

E precisa de coragem pra isso? Taci questionava, indignada; quanto mais detalhes Rita contava, mais a história parecia uma grande furada. Rita, Rita… olhe, eu não vou nem dizer mais nada. Vou-me embora que a minha parada é a próxima.


Foto: https://lenscope.com.br/blog/olho-azul/ 

sábado, 5 de março de 2022

A teimosia de dona Laura

 

  
 

Rita mal percebia as ruas desertas ficando pra trás pela janela do ônibus vazio. Era tarde da noite. Seus olhos imóveis reviam, uma por uma, as mais terríveis memórias daquele dia. Era tarde. Tarde demais para que dona Laura lhe desse ouvidos. Rita limparia, sim, o armário da cozinha, mas o banquinho de plástico não podia com ela, muito menos com a patroa. Peraí, dona Laura, eu vou pedir a escada do vizinho emprestada. Suba não, dona Laura, esse banquinho não pode com a senho…

Tarde demais. O banco quebrando, dona Laura caindo, a cabeça dela batendo na quina da mesa, seu sangue escorrendo pelo chão da cozinha, sua vida se esvaindo sob os pés de Rita. Por três segundos, Rita não soube o que fazer. Não acreditou logo no que acontecera, como se de repente estivessem, ela e a patroa, dentro de uma cena de novela. Sangue, sangue, sangue. Rita não suportava ver sangue, a ponto de desmaiar. Depois de três segundos, contudo, deu-se conta de que não poderia desmaiar. 

Correria gritando socorro, tocaria freneticamente as campainhas dos vizinhos que não se dariam ao trabalho de atender tão imediatamente, no tempo de uma vida se acabando, ao chamado desesperado de uma campainha. Rita deixaria dona Laura morrendo, desceria as escadas e bateria nas portas do andar de baixo e de cima. As gentes dali não gostam de ser incomodadas. As gentes dali gostaram apenas de lamentar, do alto das janelas de seus apartamentos, quando a ambulância chegou e levou dona Laura já sem vida para o hospital. 

Era tarde quando liberaram o corpo de dona Laura do IML, resolvendo se havia algo a ser investigado naquela morte estúpida. Rita numa delegacia, sem entender direito porque não queriam que ela fosse ao velório. Eu mesma não quis subir, seu Delegado, avisei que o banquinho não podia com ela, mas ela teimou. Quando eu vi, já era tarde.

Que alertou a vítima de que o móvel de plástico não suportaria o peso, no que foi desconsiderada. Que estava na iminência de ir buscar uma escada emprestada quando a vítima se acidentou. Que se ausentou do local do acidente em busca de auxílio, sem, contudo, ter logrado êxito. Que telefonou ao filho da vítima, responsável por ter chamado a ambulância. Que, quando do socorro médico, a fatalidade já havia se tornado irreversível. Ao ser perguntada se teria alguma desavença com a vítima, a depoente negou. Ao ser questionada se a vítima pagava o seu salário em dia, a depoente respondeu que sim. Ao ser perquirida se a vítima lhe devia algum dinheiro, a depoente declarou que não.  Ao ser perguntada se considerava a vítima uma boa patroa, a depoente respondeu afirmativamente.

Era muito tarde quando Rita foi liberada da delegacia, sem compreender o porquê de tantas perguntas. Quando o patrão recusou seu telefonema querendo saber onde dona Laura havia sido enterrada. Quando esperou mais de quarenta minutos pelo último ônibus em frente à Central de Polícia. Quando sentou-se à janela, com seu olhar perdido revendo o corpo ensanguentado de dona Laura. O banquinho não pôde com ela. Já era tarde. 


Foto: https://noticias.r7.com/cidades/mulheres-pressionam-por-criacao-de-lei-federal-para-que-possam-descer-do-onibus-fora-do-ponto-depois-das-22h-21012016

domingo, 30 de janeiro de 2022

RITA NA LUTA - Doenceiro solto



Foi covid, seu Carlinhos. Não durou cinco dias no hospital. Tanto que avisaram a ele… Eu mesma dei conselho: se vacine, homem! Mas ele não quis saber. Dizia que o povo tava adoecendo era por causa da vacina, que não tinha precisão, que a vacina dele era a de Deus, essas conversas.

A moça de óculos escuros lamentava movendo a cabeça sutilmente de um lado para o outro, em modo de não, no que olhou para cima e encontrou os olhos de Rita prestando atenção na conversa. Rita, de pé no corredor do ônibus, segurava as barras de apoio do banco em que a moça vinha sentada ao lado de seu Carlinhos. Este, um senhor educado, havia oferecido o lugar a Rita assim que ela chegou, com sua bolsa pesada. Agradeceu, não precisava, então me dê suas coisas, muito obrigada. Ele notou, pelo reflexo das lentes dos óculos, o encontro do olhar da moça com o de Rita e, ao tomar a palavra, dirigiu-se às duas.

Meu filho chegou em casa com uma conversa dessas também, que não ia tomar a vacina. Pois dentro da minha casa você não pisa, eu dei as ordens. Deixei não. Trazer doença para a gente? Não era nem por mim, que fui o primeiro a entrar no postinho para me vacinar, quando chegou a minha vez. Mas tinha a irmã dele, que na época tinha tomado só a primeira dose; a minha netinha, que agora é que vai agendar… A gente não pode descuidar não, que o doenceiro está solto no meio do mundo.

Rita pegou a deixa e entrou de vez na conversa. Na casa da patroa dela foi adoecendo um atrás do outro, depois das festas do fim do ano. Ninguém lá se vacinou, tirando a filha do meio, que é brigada com todo mundo e não foi nem para o Natal. Mas caiu também, porque, além da covid, tá dando essa gripe aí, todo mundo pegando. Sei que começou com o caçula, depois do Natal. Já voltou pra casa doente mais a esposa e os dois filhos, os quatro tossindo, com febre e dor de cabeça. Tudinho positivou. Três dias depois, o patrão adoeceu do mesmo jeito. Passou mais uns dias, foi a vez de dona Laura, junto com o mais velho e a esposa. Essa bateu até no hospital, faltando ar. Por isso mandaram o menino deles pra casa da avó doente, mais um para eu tomar de conta. Uma peste! Escondendo os remédios de dona Laura, bulindo em tudo, espalhando os brinquedos pela casa toda, sem brincar com nenhum… Ainda judiava com o cachorro. Menino que come na hora que quer, não sabe, sem gostar de comida nenhuma que tem na mesa; lá ia eu atrás de salsicha pra fazer cachorro-quente na hora do almoço. 

A moça de óculos escuros balançava a cabeça em reprovação novamente, pouco antes de atender uma ligação. Ah, se fosse meu neto, dava logo umas boas palmadas, comentou seu Carlinhos. Pense numa bença! _ Rita continuou. Resultado: pegou fraqueza, vivendo só de lanche, terminou voltando pra casa doente também. Só quem testou foram os primeiros, mas acho que tudinho foi covid. Por que eu acho: porque eu fui a única que escapei. Se peguei, não tive nada. Se bem que no sábado senti a garganta um pouquinho, uma molezinha bem de leve. Passei o domingo deitada, tomando chá de alho com limão, e segunda-feira, pronto, já estava boa. Agora, isso por causa de quê?

Da vacina! Respondeu seu Carlinhos. A moça continuava na ligação, saída da conversa. Seu Carlinhos se ajeitava para descer do ônibus, devolvendo as coisas de Rita, que se preparava para sentar no lugar dele. Ela passou o restante da viagem cochilando. Acordou já bem pertinho de casa, com a moça de óculos escuros ainda ao telefone. Quase que Rita perdia o ponto. 


Foto: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/covid-passageiro-deixa-aviso-de-nao-sente-apos-espirros-em-onibus.phtml

sábado, 15 de janeiro de 2022

RITA NA LUTA - O mundo está perdido

 


Do assento onde estava, Rita acompanhava a algazarra dos meninos. Um deles acabara de sentar-se ao lado da mocinha do mesmo tamanho, deviam ter todos uns doze ou treze, no máximo catorze anos. Começou com o menorzinho pedindo o whatsaap dela, que negou: só passaria o numero para o outro, de boné. Eita porra, Gasguito ganhou a boyzinha! Assovios, batuques, gaitadas. Quando Rita voltou as vistas, os dois já estavam aos beijos, no meio do busú.

Esse mundo está perdido _ se espantava a senhora ao lado, antes de desatar a falar. A primeira vez que fui beijada, achei que tinha engravidado de gêmeos_ e olha que foi nas bochechas. Culpa da minha avó. Era Carnaval e eu, com onze anos, adorava as La Ursas. Aliás, eu amava tudo do Carnaval: as fitas, as  cores, as sombrinhas de frevo, o côco de roda, os bois, a animação que ficava nas ruas… mas minha avó não me deixava brincar. “Menina que pula carnaval se perde logo na vida”, dizia. Na minha cabeça, ela tinha medo de eu me perder no meio da multidão e não achar mais o caminho de volta. Eu já tinha me perdido uma vez, na feira do Oitizeiro, e não queria passar por aquilo novamente. A tarde todinha andando de um lado para o outro, morrendo de medo de ficar de castigo quando me encontrassem… Então ela explicou que o se perder não era daquele jeito, e sim entrar para a vida errada, se desviar do caminho certo de viver, como engravidar antes da hora. “E como é que acontece uma coisa dessas, vó?”, eu perguntei. “Começa os meninos beijando você no Carnaval, por exemplo”. Prometi não deixar ninguém me beijar nem sair da nossa calçada, e assim consegui aproveitar um pouco a folia, morta de feliz. Até que, junto com o urso mais animado do bairro, vieram Amaro e Antônio. Já chegaram me dando um beijo em cada bochecha.

O pai deles tinha uma vendinha na esquina, onde os meninos se revesavam ajudando no balcão. Eu gostava dos dois, que eram também meus colegas da escola. Quando minha avó me mandava ir na vendinha, o caminho todo eu ia suando, tentando adivinhar qual dos dois estariam naquele dia. Moeda para cima: cara, o sorriso tímido de Antônio; coroa, os olhos pretinhos de Amaro.

“A la ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”... e aquele urso branco de estopa rodopiando na nossa frente. Eu, apavorada, engravidada por Antônio e Amaro ao mesmo tempo, começando a me perder nos caminhos errados do Carnaval. Chorei até a quarta-feira de cinzas, e, como a barriga não cresceu, deixei a história pra lá.

Rita, que ouvia com atenção, já se arrumava para descer do ônibus. Enquanto levantava, a senhora foi concluindo: Hoje em dia, isso não acontece mais. A internet está aí, ensinando de tudo para esses meninos. Como engravida, como não engravida, como troca a fralda… tudinho no celular deles, por isso o mundo está perdido. Vá com Deus, minha senhora. E vocês aí, tomem juízo.


Foto: Isabella Mayer/SMCS

https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/linha-colombocic-beneficia-370-mil-pessoas-por-mes/54747


domingo, 19 de dezembro de 2021

Rita na Luta - Apertada



 

Estava muito inquieta a moça de vestido amarelo na parada de ônibus. Consultava as horas compulsivamente, resmungando um tal de ai meu Deus, cadê esse busú, que não chega, a maior agonia. E balançava as pernas para lá e para cá, sem sair do canto, contorcendo o corpo numa aflição danada. Rita discretamente se aproximou dando conta do banheiro no mercadinho ali perto. Pedindo direitinho, a deixariam usar, bastava entrar no beco à direita, atravessar a rua e caminhar umas três ou quatro casas. 

Agradeço, viu, senhora, mas vou segurar, mesmo. Estou muito atrasada e periga eu perder esse ônibus, já tem quarenta e cinco minutos que estou esperando aqui, a senhora acredita? Como é que pode um negócio desses? Eu fico para não viver! Porque patrão, patrão não quer saber se o transporte passou do horário. A gente é que se vire, não é verdade? Agora, se a senhora me der cobertura, eu tenho coragem de fazer xixi ali na esquina, atrás daquela caçamba.

Rita não titubeou, indo com a moça até o outro lado da rua, sob os olhares indiscretos de todos que estavam no ponto. Algumas mulheres balançavam a cabeça e cochichavam umas com as outras em tom de reprovação, enquanto dois meninos desataram a rir, se sacudindo de tanto achar graça. Detrás da caçamba, Rita procurava a melhor posição para cobrir a moça, que rapidamente foi se acocorando, suspendendo o vestido comprido, afastando a calcinha e finalmente se aliviando. Já mais calma, agradeceu pelo apoio e se apresentou: Jucilene. Começava a se ajeitar quando Rita avistou a condução chegando. Elas correram de volta à parada e subiram, com a ajuda dos meninos gaiatos, que pediram ao motorista para esperar.

Por tanto ter demorado, o ônibus vinha lotadíssimo. Rita e Jucilene mal tinham onde se segurar, espremidas antes da catraca, perto dos meninos. Que sufoco, hein, tia? E as duas riram, junto com outros passageiros que haviam testemunhado a situação e também se amontoavam na parte traseira do busão. Se não fosse essa aqui, ó, Jucilene apontava com o queixo pra Rita, nessa hora vocês tavam tudinho aguentando a catinga, num imprensado desses. 

Rita, então, começou a contar de quando ela passou mal a viagem toda, segurando o xixi. Era a primeira vez que ela ia na casa de dona Laura, pra ver se conseguia o serviço. Estava muito nervosa e por isso teve a ideia de levar uma garrafinha repleta de chá de camomila, para ajudar a se acalmar. Rita precisava muito do trabalho, desempregada há mais de ano, mas não fazia ideia do que era pra dizer numa Entrevista de Emprego, assim com esse nome chique, como dona Laura tinha falado ao telefone. Além do mais, tinha medo de se atrasar ou se perder porque não conhecia o bairro do Altiplano, era muito longe de Mandacaru, onde morava, tendo que descer na integração e pegar outro transporte. O ônibus também demorou muito a passar naquele dia, e nessa espera ela foi tomando ansiosamente a garrafa inteira de chá. Resultado: Rita se espremendo o caminho todo, rezando para o motorista desviar dos buracos e passar devagar nas lombadas. Chegou na casa de dona Laura e pediu logo para ir ao banheiro, morrendo de vergonha.

E a senhora conseguiu o emprego, tia?

Eu não me lembro o que disse na tal da entrevista, mas faz quinze anos que estou lá. Só não sei se chego hoje, porque vai demorar uma vida para atravessar esse busú. 

Ô motô, abre aqui atrás pra tia descer, por favor.


Imagem: https://www.abcdoabc.com.br/brasil-mundo/noticia/camara-sp-aprova-2-votacao-multa-xixi-rua-48990

domingo, 21 de novembro de 2021

RITA NA LUTA - Enchente

 

 

Tão cedo da manhã, o sol já era o de meio dia. A cidade inteira, um imenso cuscuz abafado. Rita fervia dentro do ônibus, indo para a casa de D. Laura, mas pelo menos vinha sentada, no lado do corredor. O passageiro ao seu lado instalou-se em frente à janela, barrando todo o vento que já era pouco, até mesmo porque o buzú mais parava que andava, engasgado no engarrafamento de todos os dias. Quando pegava um sinal aberto e uma faixa livre, o vento corria e a alegria era grande. Mas durava pouco. Logo em seguida, parava de novo, e tinha gente a ponto de desmaiar de calor. 


Alguém chamou o nome de Rita, duas fileiras atrás. Era Taci, sua vizinha, guardando o lugar que acabara de vagar. Por sorte o rapaz de pé em frente ao banco respeitou, cedendo o assento à jovem senhora que rapidamente se deslocou até lá. Menina, que calor é esse, Rita já chegou reclamando, deixa eu sentar nessa janela um pouquinho pelo amor de Deus. 


Logo cedo já está desse jeito, hein, Rita? Desde que eu moro aqui nunca tinha passado tanta quentura, tô achando que tá mais quente esse ano, não está? Rita fez que sim, com a cabeça, se abanando. E pouco choveu no meio do ano, não foi? Época de São João, que está sempre chovendo, foi quase seco, esse ano está doido.  Olhe, eu não sei o que é pior: época de chuva ou esse calorão todo. Vida de pobre é sofrida de todo jeito, andando no sol quente ou debaixo do aguaceiro. Não vê esse povo de carro aí embaixo, ar-condicionado no máximo, quando chove, também, não faz nem diferença pra eles. 


Logo que eu cheguei de Jaboatão, sabe, Rita, eu fui morar numa vila que tem perto do Rio Jaguaribe. É São Rafael, ali, uma casinha bem pequenininha, que dava para a ponte. Teve uma vez que choveu dois dias seguidos sem parar, enchente braba, e o Rio teve uma cheia. Quebrou até a ponte. A água entrou em casa e levou tudo: sofá, televisão, armário de cozinha, a geladeira novinha que eu tinha acabado de comprar, tudo, tudo que eu tinha. Sobrou só as coisinhas do meu quarto. Uma tristeza, perder tudo que você tem de uma hora para a outra. 


Mas a gente tá sempre dando a volta por cima, né, Taci? A vida não roda, não, ela capota. Um dia esse pessoal tá no bem bom, no friozinho desses carros chiques, dinheiro que não tem nem onde gastar. Dando tudo fácil pra esses meninos aí, ó, que não sabem nem atravessar uma rua. No outro dia, não estão mais aqui e fica o povo todinho brigando por herança. Desse jeito. Melhor viver a vida simples, mesmo que passe mais calor. Vai descer na próxima, não é? Cuida.


Foto: Daniel Búrigo, A Tribuna https://www.4oito.com.br/noticia/o-calor-que-se-passa-nos-onibus-10221

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...