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quinta-feira, 5 de junho de 2025

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/

 Música Artesanal, este é o livro de partituras que Milton Dornellas lançou na noite de 04 de junho de 2025, em João Pessoa. Editorado pel´A União (2025), o songbook foi partiturado por Rudá Barreto e Uaná Barreto, este último tendo também feito os arranjos junto com Sérgio Gallo. Maúde Viscardi participa da obra como assessora de imagem, além de companheira de toda a vida e de todas as canções. Na capa elegante de fundo preto, vemos saltar a fotografia de Thercles Silva registrando as mãos de Milton apoiando seu violão, e, abertas as páginas, a produtora musical Adriana Pio nos apresenta o autor com as palavras certas para traduzir a grandeza musical e afetiva desse artista tão admirado. 

A frente da livraria União estava lotada de gente para vê-lo, principalmente os muitos artistas que abundam nessa terra e tem em Milton uma referência. O evento contou com uma mesa de abertura composta pelo próprio autor do livro, por Naná Garcez, diretora da Empresa Paraibana de Comunicação; pelo jornalista André Cananéa, que apresentou a obra; pelo o querido músico Adeildo Vieira e por mim, que fui devidamente apresentada como escritora e filha de Ronaldo Monte, um dos principais parceiros musicais de Milton Dornellas. Depois que falamos, alguns dos melhores artistas da Paraíba cantaram e tocaram suas canções: Dida Vieira, Escurinho, Adeildo Vieira, Totonho, Gláucia Lima, Uaná Barreto, Rudá Barreto, Chico Limeira e, pra terminar, o coral Voz Ativa cantando “Talo de Capim”. O momento foi muito emocionante e certamente entrou para a memória das artes da nossa terra.

Quando Milton me convidou para estar na mesa desse lançamento, eu não pude recusar. Mas sabia que a tarefa seria uma das mais difíceis de toda a minha vida por conta da intensidade das emoções que a música dele me evoca, sobretudo memórias de infância e saudades irremediáveis. A pedido de algumas pessoas que estavam presentes, partilho o texto que li me tremendo toda. 


***


Eu não sei ler esse livro em que Milton gravou suas músicas, mas a música de Milton está gravada em mim desde criança. 

Digo assim, “a música”, para aludir a uma força vital que eu, pequena, sentia circular ao redor da mesa nas muitas farras que aconteciam na casa dele ou lá em casa. Sou sobrinha de Milton porque sou filha de Goga e Rona. Ronaldo Monte, que era quem devia estar falando aqui no meu lugar e por isso eu resolvi escrever pra escolher bem as palavras e não fazer vergonha a ele. 

Pois bem, nessas festas basicamente meus pais largavam os filhos lendo gibis na casa de Milton e Maúde e eles ficavam fazendo as músicas que agora estão nesse livro. De repente começavam a bater palmas e batucar os talheres nas panelas, nos pratos, nas taças; Milton pegava o violão e Rona pegava a caneta, era assim. Eu com a Turma da Mônica, esquecida, enquanto eles cantavam, tocavam e dançavam: Milton, Maúde, Nana, Celinha, meus pais e quem mais estivesse por perto. Essa seiva me nutriu de algo que eu não entendia, mas me dava muita vontade de viver.  

Milton é de uma geração de artistas que encara a música e a arte como instrumento de transformação social. Ele participou de muitas iniciativas de intervenção político-cultural na Paraíba dos anos 80 e 90: teve o Musiclube da Paraíba, junto com Pedro Osmar, Paulo Ró, Chico César, Totonho, Adeildo Vieira, entre outros; teve o Projeto Fala Bairros, que cuidava de fomentar a participação sócio-cultural nos bairros de João Pessoa; teve o Grupo Etnia, com Alice Lumi e Fernando Pintassilgo; e também o Assaltarte, com Xisto Medeiros e Marcos Fonseca. Além de ter participado desses grupos todos, ele ainda conduziu a política cultural da cidade à frente da FUNJOPE durante alguns anos. Por esse engajamento e pela qualidade da sua obra, Milton Dornellas é respeitado por todos. 

Muitas cantoras e cantores gravaram as suas músicas, como Gláucia Lima, Dida Vieira, Soraia Bandeira, Ana Salvagni, Escurinho, Isa Talbe, Paulinho Ditarso e o Coral Voz Ativa. Entre os seus principais parceiros de autoria estão Pedro Osmar, Paulo Ró, Totonho, Adeildo Vieira, Joãozinho Gomes, Alberto Moby e, logicamente, Ronaldo Monte. 

A discografia de Milton conta com oito discos, afora as coletâneas de que participou. No Ventre da Besta (1986), o seu primeiro, atestamos uma qualidade melódica assombrosa, uma riqueza de instrumentos e arranjos combinados com letras fortes, criativas, como a de “Bolero de Bordel”, mostrando ao mundo um músico “virado no dindin”, que faz rima até com “fila do INAMPS” - ele é “tampa”, é “mala”, é “cola”, ele é “mesmo o bom de bola!”. No disco seguinte, de 1993, nomeado pela canção Mandrágora (1993), ouvimos um experimento psicodélico sentido como uma saudade, uma melancolia grave que traz “flores pastos, mantras e a via láctea”. 

O meu preferido é Ancestrais, disco de 1998 gravado com o Quinteto da Paraíba, de uma beleza musical rara. “Trago um coração”, ele nos canta, “apanhado no meio do algodoal. Meio lua, meio pandeiro, meio trovão, com sorrisos e tambores dentro da noite”. Aqui temos Xangai, temos Soraia Bandeira, temos Chico César, temos Adeildo com “Mamma Jazz” - “se cuide, pois você é tão novo, tão novo, tão novo, oh indefeso filhinho” - temos Totonho e Pedro Osmar no “Barqueiro de Luanda”, e temos o auge da boniteza da parceria de Milton com Ronaldo Monte: “Cantiga de Chegança”, “Meu canto tem velas”, “Deixe Estar”, “Centauro”, e a minha preferida entre todas: “Talo de Capim”. Quando acordo no meio da noite, ela toca dentro de mim: “copo d´água, sono calmo, salva o coração, coisa tão pouca”. 

Depois vieram Sete Mares (2000), Alinhavo (2002), O Gargalhar da Invernada (2007), inspirado no “Grande Sertões: Veredas”, de Guimarães Rosa; em 2012 veio Bom mesmo é a gargalhada no final e Senderos em 2019, com a comovente “Cantiga do Sol”. Mas não tenho aqui tempo nem coragem suficiente para falar de todos esses discos que nasceram, a maioria, à medida em que eu crescia dimensionando cada vez mais o tamanho de Milton, de meu pai, dos artistas que estavam ao redor deles, da grandeza musical da Paraíba, da minha própria vontade de virar escritora e botar pra fora o que esse povo encheu em mim desde pequena. 

Às vezes perguntam a Milton: “Mas você vive de música?”, e ele responde: “Eu morro de música”. É esse tipo de paixão que nos embala a criar outras métricas para o mundo; um mundo solidário e cheio de poesia como a dele. Com esse livro, Milton Dornellas deságua no mar. É a sua própria “Cantiga de Chegança”, composta por ele e por Ronaldo Monte: 


"Desde montes e baixadas

Caminhei, cortei estradas

Demorei muito a chegar no mar

E lá domar fogo e paixão

Minha balsa tão bonita

Enfeite de flor e fita

Desce o rio até chegar no mar

E adoçar meu coração

Nessas águas caudalosas

Às “vez” com lua, às “vez” remosa

Cruzei rio até chegar no mar

E festejar com o coração”


Ana Lia Almeida
05 de junho de 2025

segunda-feira, 18 de novembro de 2024

O nobre professor

 Ana Lia Almeida

 

Espero o elevador me perguntando o que acabou de acontecer.

            A porta abre, eu vacilo antes de entrar. Penso em voltar, arrombar a casa, esmurrar o professor até até tirar sangue, mostrar que sou homem. Não a bichinha que foi embora desse apartamento de luxo com o rabo entre as pernas. Aperto o botão, me olho no espelho: sou um nojo.

            Décimo oitavo andar. Será que eu queria, que desde sempre o desejei sem perceber? Não pode ser. Terá sido por isso que parti de tão longe, um dia e meio dentro de um ônibus fedido, quatro meses sem a sopa da minha mãe? Atravessei tantas barreiras movido por um desejo oculto até mesmo de mim? Não, eu nunca quis o professor, não desse jeito. Queria só que ele me notasse, precisava da bolsa.

Décimo sexto andar. Estudo sem quase dormir nem comer desde que cheguei nessa porra dessa faculdade, tentando me destacar num grupo de fluentes em inglês, espanhol e alemão. Alguns sabem até russo, feito Pedro – o preferido do professor. Não tem como aprender sem ler nos originais, o professor reclama com a gente, vocês estão na melhor faculdade do país. E eu lutando pra conseguir escrever direito em português, disfarçando meu sotaque pra parecer com eles, pra ser igual a Pedro: andar com o professor pra cima e pra baixo, traduzir os artigos dele nas revistas internacionais.

Décimo quinto andar. Eu jamais serei como eles, mas o professor, mesmo assim, gostou de mim.

            Décimo quarto andar. Agora vejo porque o professor gostou de mim. Não pela minha inteligência, não pelo meu esforço. Deve estar na minha cara. Como o professor viu o meu fogo secreto, se minha vida é impedi-lo de se alastrar?

            Décimo terceiro. Nunca ninguém pode saber do que aconteceu agora e eu nem mesmo sei explicar.

            Décimo segundo andar. A culpa é minha. Hoje é domingo, o que eu vim fazer na casa do professor? Ele não tem descanso: escreve artigos, livros, viaja pelo mundo dando palestras, entrevistas para a tevê. Sexta, no fim da aula, mostrei a ele o rascunho do artigo. Venha na minha casa depois de amanhã. Mas depois de amanhã é domingo, professor. Riu sacodindo os ombros, ajeitando os óculos com o dedo indicador: você acha que aqui tem isso de domingo? De onde você é mesmo?

            Os domingos do professor não são pra acordar mais tarde e gastar o tempo no sofá assistindo Faustão. Sentar na calçada, que nem eu, e falar mal da vida alheia em vez de aprender alemão. Não. Domingo é pra escrever artigo, montar livro, preparar palestra. E também para dar orientação extra para alunos na casa dele.

            Décimo andar. Tá, era um pouco suspeito.

Mas o professor vive pra trabalhar e eu não tinha porque desconfiar de nada. Quer dizer, eu sabia – todo mundo sabia – de umas histórias maldosas envolvendo o professor. Gente ingrata que ele tinha ajudado e depois ficou com raiva porque não ganhou bolsa, porque não foi para o sanduíche na Alemanha. Por sinal, a minha vez está chegando, eu sou o próximo depois de Pedro. Já leio textos técnicos e sei o nome das comidas – fome eu não vou passar.

Próximo semestre é você, falta só ganhar fluência, o professor me encara com olhos cortantes logo que chego na casa dele. Dá três tapinhas no alto das minhas costas, vem descendo a mão; se eu não dou um passo à frente, certamente alcançaria a minha bunda.

Sétimo andar. Puta que o pariu. Como eu sou burro, não é invenção do povo. A gente, do grupo, é que nunca leva a sério – ou não quer acreditar. Ganhamos as bolsas, somos os coautores dos livros, publicamos nas revistas que ele indicada, viajamos pra porra da Alemanha pelo convênio dele. Contanto que estejamos ali para o que precisar, que o defendamos contra as coisas que falam dele: estudante que ele passa a mão, que ele pede boquete, que ele imprensa na parede. Mas ninguém tem coragem de falar abertamente ou fazer uma denúncia, não passa de boatos, conversas de corredor. E ainda tem os outros professores do grupo dizendo que é tudo mentira, que querem destruir a carreira do nobre professor, que vão meter processo, que basta perguntar aos orientandos – e apontam para nós: não é, Fulano? E esse Fulano nem tem escolha, a próxima bolsa é dele.

Quinto andar. A gente não quer ver, não pode ver. Nem mesmo quando Pedro sumiu, do nada, e passou a vagar pela faculdade perdendo cinco quilos por semana. Falta um mês pra viagem dele, já comprou passagem e tudo pra Berlim. Mas de uma hora pra outra, Pedro largou o grupo de estudos. Quando a gente o avista de longe, ele baixa a cabeça e some num corredor.

Quarto andar. O que foi que eu fiz? Por que permiti àquelas mãos pegajosas percorrerem meu corpo, apertarem meu pau, guiarem minha cabeça no vai-e-vem que engolia a carne podre do professor? Vale uma bolsa, isso? Um doutorado na Alemanha? Terceiro andar: esse professor escroto vai se foder comigo! Vou contar pra todo mundo, isso não vai ficar assim. Segundo andar. Não conto pra ninguém. Minha mãe não pode saber que eu sou gay, meu pai vai morrer de desgosto. Primeiro andar. Mesmo que eu conte, ninguém vai acreditar em mim: um cara que veio lá das brenhas e não sabe nem falar alemão.

A porta do elevador se abre e dou de cara com Pedro.

sábado, 3 de setembro de 2022

Lançamento de "Travessia": uma novela de Ana Lia Almeida

 


Com muita alegria convido a todas e todos para o lançamento presencial do meu novo livro "Travessia", dia 10/09/22 às 17h no Bricktop´s Café.


"Travessia" é uma novela sobre os caminhos tortuosos da maternidade profunda, com seus dilemas, seus desafios e suas delícias. Integra a terceira coleção de livros de bolsa do "Mulherio das Letras", publicada pela Ed. Venas Abiertas.

Terei a honra de contar com a mediação da escritora Débora Ferraz e um punhado de bons amigos. Se você é mãe, é pai, ou simplesmente qualquer tipo de ser humano que aprecia a arte das letras, venha!

A Bricktop´s Café fica na Av. Guarabira, nº 501, Manaíra - João Pessoa/PB.

domingo, 14 de agosto de 2022

As bolsas das mulheres de Larissa Rodrigues

 

Larissa Rodrigues estreia na literatura com um romance, “O que as mulheres carregam nas bolsas” (Ed. Mondrongo, 2022). É um livro sobre sororidade, sobre a partilha de vidas atravessadas pela violência e pelas desigualdades de gênero, mas, sobretudo, uma história sobre distâncias e encontros culturais.


As protagonistas, Elisabeth e Parisa, vivenciam uma amizade posta a prova o tempo inteiro por estranhamentos recíprocos. Isto porque Parisa é uma afegã a quem se aplica, aos olhos ocidentais de Elisabeth, todos os signos da opressão que operam contra as mulheres do “oriente”. Nosso julgamento sobre Elisabeth, contudo, à medida que a trama avança, aproxima-a da amiga Parisa, com quem trabalha em um Museu. 


É nessa chave que o livro nos prende. Em meio aos acontecimentos da vida que ora distanciam, ora aproximam Parisa e Elisabeth, vamos revendo nossos estereótipos sobre a cultura oriental, sobretudo no tocante às mulheres. Na verdade, revemos a nós mesmas como mulheres assim chamadas “emancipadas” em cada encruzilhada que o machismo nos mete pelo caminho. Descobrimos, com Elisabeth, que embora o casamento de Parisa de fato se expresse a partir de convenções de gênero violentas, a personagem o tempo todo se põe em luta para escapar dos determinismos de sua cultura. De outro lado, Elisabeth se deixa aprisionar por uma relação do passado que também opera a partir de convenções machistas, porém, desiludida, acomoda-se. É por causa da amiga que se põe novamente em movimento ao solidarizar-se com a irmã e o sobrinho de Parisa, enquanto vai enfrentando seus fantasmas e tomando as rédeas da própria vida.


Em vez de enveredar-se numa tendência ensimesmada, voltando-se a questões de um “eu” aparentemente desconectado da realidade histórica, Larissa nos oferece uma narrativa de alto compromisso com o mundo, com a dimensão coletiva e social da experiência humana. Com a superação de preconceitos culturais. Com a superação da violência contra a mulher. Com a necessidade de nos comprometermos com os problemas que surgem ao nosso redor e com o enfrentamento de nossos próprios problemas. É um livro que toma partido, ao mesmo tempo em que aborda as contradições pessoais e sociais de modo nada simplista.


Que seja o primeiro de muitos. Que Larissa Rodrigues continue a sua caminhada literária nos trazendo mais e mais reflexões sobre o mundo em que vivemos e as maneiras de torná-lo um lugar melhor.










sexta-feira, 5 de agosto de 2022

As feridas abertas de “Porco de Raça”

 


“Porco de Raça”, em poucas palavras, é um livro importante. Não somente por ter ganho o prêmio Machado da DarkSide Books, tampouco pela atenção merecida que vem recebendo da crítica. Mais do que importante, é um livro necessário ao tempo em que vivemos pelas feridas purulentas que deixa sangrar.

Bruno Ribeiro, nesse romance editado pela DarkSide (2021), fabula uma distopia sobre um professor negro que é capturado para um reality show no qual é obrigado a lutar contra sujeitos considerados a escória social, sobre a rubrica de “criminosos”. Tudo isso numa cadeia de entretenimento voltado, primeiro, às elites, mas logo se expandindo rumo à popularização através do sucesso televisivo da violência. Na trama, enquanto o ritmo frenético da narrativa de Bruno vai nos tirando o fôlego, o passado do protagonista - conhecido nos ringues como Porco Sucio - descortina os caminhos atravessados pela violência racial  e de classe da sociedade brasileira. 

Ao meu ver, “Porco de Raça” corta na carne de um Brasil ignorante de suas próprias feridas pelo menos três graves purulências. 

Primeiro, o racismo em geral. O institucional. O estrutural. O nosso. Aquele que é constitutivo da forma como se organiza o mundo e as relações sociais no Brasil. Os “criminosos” capturados, e, portanto, escravizados, que vão parar no programa de luta, estão implicados numa inescapável racialização. Tanto porque costumeiramente os negro é que são tidos por “bandidos”, como porque uma das marcas dos processos de racialização é a comparação com a “natureza”. O negro, assim, é sempre animalizado, bestializado, e no livro essa etiqueta da degeneração se perfaz com o uso das máscaras de animais para esconder os rostos dos lutadores. No caso do Porco Sucio, que evidentemente não era um “criminoso”, e sim um “fracassado”, a vulnerabilidade que o levou aos ringues é compartilhada socialmente pelas pessoas negras, na vida comum desses corpos em luta constante pela sobrevivência e, como o professor protagonista, comumente “fracassam”. 

Segundo, o livro desnuda o impacto do racismo na produção da subjetividade das pessoas negras. Insegurança, sabotagem, branqueamento. O modo como o rapaz apaixonado por Wênia enxerga embate quando o que ela lhe oferece é companheirismo, porque desconfia, e desconfia porque a vida o ensinou a desconfiar, sempre. O modo como seu irmão, de outro lado, alisa desde cedo os cabelos para se branquear, e todos em sua família mimetizam o mundo dos brancos - porque é real, o mundo é mesmo dos brancos. Luta, luta, luta. Luta perdida, por todos, não só pelos negros e negras. Eu, enquanto mulher branca, aprendi. Li. Ouvi. Ecoou em minhas memórias certas situações que incompreendi ao me relacionar com pessoas negras, por carregarem um tipo de experiência social que não estava ao meu alcance. Intelectuais como Franz Fanon e Lélia Gonzalez já haviam me explicado, mas com Bruno aprendi um pouco mais, de outro jeito.

Três: os rumos da produção da violência no Brasil e no mundo. Nessa distopia muitíssimo plausível de Bruno, lemos o Brasil que bate à nossa porta e estamos, muitos de nós, deixando entrar. O Brasil que vê crescer os clubes de tiros. O país dos grupos de extermínio. A audiência dos programas policialescos de todos os dias, xingando o povo preto pobre de bandido e perguntando cadê os direitos humanos. O cara que invade a festa e mata o aniversariante por discordar de suas opções políticas. Quem tem coragem de apostar com Bruno que, por esses dias, não saiam por aí catando os pretos pobres, metam-lhes máscaras de bicho e os joguem num ringue para lutar uns contra os outros, arrodeados de câmeras?

Nos cabe mesmo, lutar. Com a força de nossas palavras. Com o exemplo de nossas atitudes. Com o nosso voto, esse ano. Para que não termine se impondo essa tragédia anunciada por Bruno Ribeiro nas linhas de “Porco de Raça”.    


sábado, 4 de junho de 2022

RITA NA LUTA - O espetinho de Rita

 

Digaí, comadre, vai querer de quê hoje?

Manda dois de frango e um queijo assado, Ritinha, pra começar. Quero uma gelada também, que dia de sexta a gente fica animada!

Taci batia ponto no espetinho de Rita toda sexta no finalzinho da tarde. Descia do ônibus, voltando do trabalho, e já ficava por lá. Às vezes chegava mais cedo e ajudava a montar o carrinho, agrupando os espetos de acordo com o sabor ao lado da brasa: carne, frango, queijo, coração de galinha e até camarão. Taci deu a maior força para abrir o Espetinho de Rita. Com aquele jeitinho de quem não queria se meter, se metendo, fez a cabeça da amiga para que ela desistisse de emprestar dinheiro a Paulão Olhos Azuis, e aplicasse num negócio próprio. Ainda bem. O espetinho era um sucesso, todo mundo já descia do ponto sentindo aquele cheirinho bom, não tinha como resistir. Só quem não gostou foi o traste do Paulão, que foi-se embora de novo; mas dessa vez, Rita nem ligou. 

No começo, ficou com medo de sentir falta das amizades no busú. Mas logo viu que ali, bem em frente à parada, aproveitava a companhia das pessoas do mesmo jeito. E o melhor de tudo: bem pertinho de casa. Não precisava mais acordar cedo e se arrumar correndo pra passar quase uma hora dentro do ônibus, sem contar o tempo da espera e da volta, já cansada, com as varizes doendo. 

E agora que sua filha Clarinha tinha entrado na Faculdade, era tanto passeio, um tal de levar a mãe pro cinema, pra teatro, passear no parque, com o espetinho Rita tinha o horário mais flexível pra aproveitar a vida um pouco, também.

Além do mais, no espetinho podia ouvir as conversas dos outros por muito mais tempo, ninguém cortava uma fofoca no meio porque chegava o ponto de descer. Todo mundo sentadinho, organizado, falando da vida alheia enquanto comia um espetinho bem gostoso, com uma farofa da melhor qualidade. Assim, Rita continuava muito bem informada sobre a vizinhança. Ela nem precisava mais fingir que não estava ouvindo, porque a turma já chegava contando as coisas pra ela ouvir, mesmo.  

Levou os espetinhos de Taci e sentou-se um pouco com ela. Contou da viagem que ia fazer com Maria Clara, usando o dinheiro das horas-extras de dona Laura. As passagens já estavam compradas. De repente, chegou um monte de gente atrás de espetinho, e Rita foi atender, toda animada. 


Foto: https://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2015/10/venda-de-churrasquinho-de-rua-e-autorizada-por-lei-no-rio.html

domingo, 15 de maio de 2022

RITA NA LUTA - Olhos Azuis




Faça isso não, Rita mulher. Abre esses olhos. Tu não acha estranho essa bença aparecer logo agora? Uma luta danada pra tu ganhar esse dinheiro, quase perde esses anos todos de serviço, pra agora vir me dizer que vai dar tudo de mão beijada prum sujeito que reapareceu do nada, direto das cinzas do passado, justamente agora? Taci tinha razão. Rita meditava sobre as palavras dela enquanto observava pela janela do ônibus aqueles montes de carros parados no trânsito da manhã. 

Já estava a caminho do banco para sacar o dinheiro que Paulão pedira depois de quinze anos de sumiço. Seus olhos azuis ainda a enfeitiçavam, como na primeira vez que se viram. Desde então, Rita permitiu que a vida virasse uma grande bagunça. Paulão praticamente se mudou para a casa dela, e de repente ganhou uma espécie de marido-filho. Rita levantava cedo, fazia o café, acordava Paulão com cosquinhas. Os dois riam, ela saía para trabalhar e ele ficava em casa sem fazer nada. Rita não ligava, no começo. Mas Clarinha começou a reclamar que não tinha sossego para estudar, que o homem passava o dia assistindo televisão no volume máximo e andava o dia todo só de cueca pela casa. Depois disso, não deu nem um mês, ele sumiu. Escafedeu-se. Clarinha acendeu velas e pagou promessas. Rita, contudo, esperava por ele toda chorosa pelos cantos.

Depois de quinze anos sem dar notícias, Paulão reaparecia exatamente na semana em que a Justiça liberava o FGTS, as horas-extras e as férias atrasadas de Rita, após ser inocentada no processo criminal da morte de dona Laura. Doutor Felipo, o advogado que Taci arranjou, tinha acabado de explicar tudo bem direitinho ao telefone quando Paulão bateu na casa dela. Ô de casa. Rita ficou branca, azul e amarela, parecia ter visto um fantasma diante do homem que jamais esquecera. Ele veio com uma história de que tinha saído às pressas, fugindo de uma dívida que vieram cobrar, e de tanta vergonha, afinal, o que Rita pensaria dele, achou melhor desaparecer. Que nunca deixara de pensar nela e finalmente resolvera voltar. A dívida, porém, continuava, e havia crescido. Ele resolvera ter coragem, desta vez, para pedir-lhe o dinheiro emprestado.

E precisa de coragem pra isso? Taci questionava, indignada; quanto mais detalhes Rita contava, mais a história parecia uma grande furada. Rita, Rita… olhe, eu não vou nem dizer mais nada. Vou-me embora que a minha parada é a próxima.


Foto: https://lenscope.com.br/blog/olho-azul/ 

sábado, 5 de março de 2022

A teimosia de dona Laura

 

  
 

Rita mal percebia as ruas desertas ficando pra trás pela janela do ônibus vazio. Era tarde da noite. Seus olhos imóveis reviam, uma por uma, as mais terríveis memórias daquele dia. Era tarde. Tarde demais para que dona Laura lhe desse ouvidos. Rita limparia, sim, o armário da cozinha, mas o banquinho de plástico não podia com ela, muito menos com a patroa. Peraí, dona Laura, eu vou pedir a escada do vizinho emprestada. Suba não, dona Laura, esse banquinho não pode com a senho…

Tarde demais. O banco quebrando, dona Laura caindo, a cabeça dela batendo na quina da mesa, seu sangue escorrendo pelo chão da cozinha, sua vida se esvaindo sob os pés de Rita. Por três segundos, Rita não soube o que fazer. Não acreditou logo no que acontecera, como se de repente estivessem, ela e a patroa, dentro de uma cena de novela. Sangue, sangue, sangue. Rita não suportava ver sangue, a ponto de desmaiar. Depois de três segundos, contudo, deu-se conta de que não poderia desmaiar. 

Correria gritando socorro, tocaria freneticamente as campainhas dos vizinhos que não se dariam ao trabalho de atender tão imediatamente, no tempo de uma vida se acabando, ao chamado desesperado de uma campainha. Rita deixaria dona Laura morrendo, desceria as escadas e bateria nas portas do andar de baixo e de cima. As gentes dali não gostam de ser incomodadas. As gentes dali gostaram apenas de lamentar, do alto das janelas de seus apartamentos, quando a ambulância chegou e levou dona Laura já sem vida para o hospital. 

Era tarde quando liberaram o corpo de dona Laura do IML, resolvendo se havia algo a ser investigado naquela morte estúpida. Rita numa delegacia, sem entender direito porque não queriam que ela fosse ao velório. Eu mesma não quis subir, seu Delegado, avisei que o banquinho não podia com ela, mas ela teimou. Quando eu vi, já era tarde.

Que alertou a vítima de que o móvel de plástico não suportaria o peso, no que foi desconsiderada. Que estava na iminência de ir buscar uma escada emprestada quando a vítima se acidentou. Que se ausentou do local do acidente em busca de auxílio, sem, contudo, ter logrado êxito. Que telefonou ao filho da vítima, responsável por ter chamado a ambulância. Que, quando do socorro médico, a fatalidade já havia se tornado irreversível. Ao ser perguntada se teria alguma desavença com a vítima, a depoente negou. Ao ser questionada se a vítima pagava o seu salário em dia, a depoente respondeu que sim. Ao ser perquirida se a vítima lhe devia algum dinheiro, a depoente declarou que não.  Ao ser perguntada se considerava a vítima uma boa patroa, a depoente respondeu afirmativamente.

Era muito tarde quando Rita foi liberada da delegacia, sem compreender o porquê de tantas perguntas. Quando o patrão recusou seu telefonema querendo saber onde dona Laura havia sido enterrada. Quando esperou mais de quarenta minutos pelo último ônibus em frente à Central de Polícia. Quando sentou-se à janela, com seu olhar perdido revendo o corpo ensanguentado de dona Laura. O banquinho não pôde com ela. Já era tarde. 


Foto: https://noticias.r7.com/cidades/mulheres-pressionam-por-criacao-de-lei-federal-para-que-possam-descer-do-onibus-fora-do-ponto-depois-das-22h-21012016

domingo, 30 de janeiro de 2022

RITA NA LUTA - Doenceiro solto



Foi covid, seu Carlinhos. Não durou cinco dias no hospital. Tanto que avisaram a ele… Eu mesma dei conselho: se vacine, homem! Mas ele não quis saber. Dizia que o povo tava adoecendo era por causa da vacina, que não tinha precisão, que a vacina dele era a de Deus, essas conversas.

A moça de óculos escuros lamentava movendo a cabeça sutilmente de um lado para o outro, em modo de não, no que olhou para cima e encontrou os olhos de Rita prestando atenção na conversa. Rita, de pé no corredor do ônibus, segurava as barras de apoio do banco em que a moça vinha sentada ao lado de seu Carlinhos. Este, um senhor educado, havia oferecido o lugar a Rita assim que ela chegou, com sua bolsa pesada. Agradeceu, não precisava, então me dê suas coisas, muito obrigada. Ele notou, pelo reflexo das lentes dos óculos, o encontro do olhar da moça com o de Rita e, ao tomar a palavra, dirigiu-se às duas.

Meu filho chegou em casa com uma conversa dessas também, que não ia tomar a vacina. Pois dentro da minha casa você não pisa, eu dei as ordens. Deixei não. Trazer doença para a gente? Não era nem por mim, que fui o primeiro a entrar no postinho para me vacinar, quando chegou a minha vez. Mas tinha a irmã dele, que na época tinha tomado só a primeira dose; a minha netinha, que agora é que vai agendar… A gente não pode descuidar não, que o doenceiro está solto no meio do mundo.

Rita pegou a deixa e entrou de vez na conversa. Na casa da patroa dela foi adoecendo um atrás do outro, depois das festas do fim do ano. Ninguém lá se vacinou, tirando a filha do meio, que é brigada com todo mundo e não foi nem para o Natal. Mas caiu também, porque, além da covid, tá dando essa gripe aí, todo mundo pegando. Sei que começou com o caçula, depois do Natal. Já voltou pra casa doente mais a esposa e os dois filhos, os quatro tossindo, com febre e dor de cabeça. Tudinho positivou. Três dias depois, o patrão adoeceu do mesmo jeito. Passou mais uns dias, foi a vez de dona Laura, junto com o mais velho e a esposa. Essa bateu até no hospital, faltando ar. Por isso mandaram o menino deles pra casa da avó doente, mais um para eu tomar de conta. Uma peste! Escondendo os remédios de dona Laura, bulindo em tudo, espalhando os brinquedos pela casa toda, sem brincar com nenhum… Ainda judiava com o cachorro. Menino que come na hora que quer, não sabe, sem gostar de comida nenhuma que tem na mesa; lá ia eu atrás de salsicha pra fazer cachorro-quente na hora do almoço. 

A moça de óculos escuros balançava a cabeça em reprovação novamente, pouco antes de atender uma ligação. Ah, se fosse meu neto, dava logo umas boas palmadas, comentou seu Carlinhos. Pense numa bença! _ Rita continuou. Resultado: pegou fraqueza, vivendo só de lanche, terminou voltando pra casa doente também. Só quem testou foram os primeiros, mas acho que tudinho foi covid. Por que eu acho: porque eu fui a única que escapei. Se peguei, não tive nada. Se bem que no sábado senti a garganta um pouquinho, uma molezinha bem de leve. Passei o domingo deitada, tomando chá de alho com limão, e segunda-feira, pronto, já estava boa. Agora, isso por causa de quê?

Da vacina! Respondeu seu Carlinhos. A moça continuava na ligação, saída da conversa. Seu Carlinhos se ajeitava para descer do ônibus, devolvendo as coisas de Rita, que se preparava para sentar no lugar dele. Ela passou o restante da viagem cochilando. Acordou já bem pertinho de casa, com a moça de óculos escuros ainda ao telefone. Quase que Rita perdia o ponto. 


Foto: https://aventurasnahistoria.uol.com.br/noticias/historia-hoje/covid-passageiro-deixa-aviso-de-nao-sente-apos-espirros-em-onibus.phtml

sábado, 15 de janeiro de 2022

RITA NA LUTA - O mundo está perdido

 


Do assento onde estava, Rita acompanhava a algazarra dos meninos. Um deles acabara de sentar-se ao lado da mocinha do mesmo tamanho, deviam ter todos uns doze ou treze, no máximo catorze anos. Começou com o menorzinho pedindo o whatsaap dela, que negou: só passaria o numero para o outro, de boné. Eita porra, Gasguito ganhou a boyzinha! Assovios, batuques, gaitadas. Quando Rita voltou as vistas, os dois já estavam aos beijos, no meio do busú.

Esse mundo está perdido _ se espantava a senhora ao lado, antes de desatar a falar. A primeira vez que fui beijada, achei que tinha engravidado de gêmeos_ e olha que foi nas bochechas. Culpa da minha avó. Era Carnaval e eu, com onze anos, adorava as La Ursas. Aliás, eu amava tudo do Carnaval: as fitas, as  cores, as sombrinhas de frevo, o côco de roda, os bois, a animação que ficava nas ruas… mas minha avó não me deixava brincar. “Menina que pula carnaval se perde logo na vida”, dizia. Na minha cabeça, ela tinha medo de eu me perder no meio da multidão e não achar mais o caminho de volta. Eu já tinha me perdido uma vez, na feira do Oitizeiro, e não queria passar por aquilo novamente. A tarde todinha andando de um lado para o outro, morrendo de medo de ficar de castigo quando me encontrassem… Então ela explicou que o se perder não era daquele jeito, e sim entrar para a vida errada, se desviar do caminho certo de viver, como engravidar antes da hora. “E como é que acontece uma coisa dessas, vó?”, eu perguntei. “Começa os meninos beijando você no Carnaval, por exemplo”. Prometi não deixar ninguém me beijar nem sair da nossa calçada, e assim consegui aproveitar um pouco a folia, morta de feliz. Até que, junto com o urso mais animado do bairro, vieram Amaro e Antônio. Já chegaram me dando um beijo em cada bochecha.

O pai deles tinha uma vendinha na esquina, onde os meninos se revesavam ajudando no balcão. Eu gostava dos dois, que eram também meus colegas da escola. Quando minha avó me mandava ir na vendinha, o caminho todo eu ia suando, tentando adivinhar qual dos dois estariam naquele dia. Moeda para cima: cara, o sorriso tímido de Antônio; coroa, os olhos pretinhos de Amaro.

“A la ursa quer dinheiro, quem não dá é pirangueiro”... e aquele urso branco de estopa rodopiando na nossa frente. Eu, apavorada, engravidada por Antônio e Amaro ao mesmo tempo, começando a me perder nos caminhos errados do Carnaval. Chorei até a quarta-feira de cinzas, e, como a barriga não cresceu, deixei a história pra lá.

Rita, que ouvia com atenção, já se arrumava para descer do ônibus. Enquanto levantava, a senhora foi concluindo: Hoje em dia, isso não acontece mais. A internet está aí, ensinando de tudo para esses meninos. Como engravida, como não engravida, como troca a fralda… tudinho no celular deles, por isso o mundo está perdido. Vá com Deus, minha senhora. E vocês aí, tomem juízo.


Foto: Isabella Mayer/SMCS

https://www.curitiba.pr.gov.br/noticias/linha-colombocic-beneficia-370-mil-pessoas-por-mes/54747


domingo, 19 de dezembro de 2021

Rita na Luta - Apertada



 

Estava muito inquieta a moça de vestido amarelo na parada de ônibus. Consultava as horas compulsivamente, resmungando um tal de ai meu Deus, cadê esse busú, que não chega, a maior agonia. E balançava as pernas para lá e para cá, sem sair do canto, contorcendo o corpo numa aflição danada. Rita discretamente se aproximou dando conta do banheiro no mercadinho ali perto. Pedindo direitinho, a deixariam usar, bastava entrar no beco à direita, atravessar a rua e caminhar umas três ou quatro casas. 

Agradeço, viu, senhora, mas vou segurar, mesmo. Estou muito atrasada e periga eu perder esse ônibus, já tem quarenta e cinco minutos que estou esperando aqui, a senhora acredita? Como é que pode um negócio desses? Eu fico para não viver! Porque patrão, patrão não quer saber se o transporte passou do horário. A gente é que se vire, não é verdade? Agora, se a senhora me der cobertura, eu tenho coragem de fazer xixi ali na esquina, atrás daquela caçamba.

Rita não titubeou, indo com a moça até o outro lado da rua, sob os olhares indiscretos de todos que estavam no ponto. Algumas mulheres balançavam a cabeça e cochichavam umas com as outras em tom de reprovação, enquanto dois meninos desataram a rir, se sacudindo de tanto achar graça. Detrás da caçamba, Rita procurava a melhor posição para cobrir a moça, que rapidamente foi se acocorando, suspendendo o vestido comprido, afastando a calcinha e finalmente se aliviando. Já mais calma, agradeceu pelo apoio e se apresentou: Jucilene. Começava a se ajeitar quando Rita avistou a condução chegando. Elas correram de volta à parada e subiram, com a ajuda dos meninos gaiatos, que pediram ao motorista para esperar.

Por tanto ter demorado, o ônibus vinha lotadíssimo. Rita e Jucilene mal tinham onde se segurar, espremidas antes da catraca, perto dos meninos. Que sufoco, hein, tia? E as duas riram, junto com outros passageiros que haviam testemunhado a situação e também se amontoavam na parte traseira do busão. Se não fosse essa aqui, ó, Jucilene apontava com o queixo pra Rita, nessa hora vocês tavam tudinho aguentando a catinga, num imprensado desses. 

Rita, então, começou a contar de quando ela passou mal a viagem toda, segurando o xixi. Era a primeira vez que ela ia na casa de dona Laura, pra ver se conseguia o serviço. Estava muito nervosa e por isso teve a ideia de levar uma garrafinha repleta de chá de camomila, para ajudar a se acalmar. Rita precisava muito do trabalho, desempregada há mais de ano, mas não fazia ideia do que era pra dizer numa Entrevista de Emprego, assim com esse nome chique, como dona Laura tinha falado ao telefone. Além do mais, tinha medo de se atrasar ou se perder porque não conhecia o bairro do Altiplano, era muito longe de Mandacaru, onde morava, tendo que descer na integração e pegar outro transporte. O ônibus também demorou muito a passar naquele dia, e nessa espera ela foi tomando ansiosamente a garrafa inteira de chá. Resultado: Rita se espremendo o caminho todo, rezando para o motorista desviar dos buracos e passar devagar nas lombadas. Chegou na casa de dona Laura e pediu logo para ir ao banheiro, morrendo de vergonha.

E a senhora conseguiu o emprego, tia?

Eu não me lembro o que disse na tal da entrevista, mas faz quinze anos que estou lá. Só não sei se chego hoje, porque vai demorar uma vida para atravessar esse busú. 

Ô motô, abre aqui atrás pra tia descer, por favor.


Imagem: https://www.abcdoabc.com.br/brasil-mundo/noticia/camara-sp-aprova-2-votacao-multa-xixi-rua-48990

domingo, 21 de novembro de 2021

RITA NA LUTA - Enchente

 

 

Tão cedo da manhã, o sol já era o de meio dia. A cidade inteira, um imenso cuscuz abafado. Rita fervia dentro do ônibus, indo para a casa de D. Laura, mas pelo menos vinha sentada, no lado do corredor. O passageiro ao seu lado instalou-se em frente à janela, barrando todo o vento que já era pouco, até mesmo porque o buzú mais parava que andava, engasgado no engarrafamento de todos os dias. Quando pegava um sinal aberto e uma faixa livre, o vento corria e a alegria era grande. Mas durava pouco. Logo em seguida, parava de novo, e tinha gente a ponto de desmaiar de calor. 


Alguém chamou o nome de Rita, duas fileiras atrás. Era Taci, sua vizinha, guardando o lugar que acabara de vagar. Por sorte o rapaz de pé em frente ao banco respeitou, cedendo o assento à jovem senhora que rapidamente se deslocou até lá. Menina, que calor é esse, Rita já chegou reclamando, deixa eu sentar nessa janela um pouquinho pelo amor de Deus. 


Logo cedo já está desse jeito, hein, Rita? Desde que eu moro aqui nunca tinha passado tanta quentura, tô achando que tá mais quente esse ano, não está? Rita fez que sim, com a cabeça, se abanando. E pouco choveu no meio do ano, não foi? Época de São João, que está sempre chovendo, foi quase seco, esse ano está doido.  Olhe, eu não sei o que é pior: época de chuva ou esse calorão todo. Vida de pobre é sofrida de todo jeito, andando no sol quente ou debaixo do aguaceiro. Não vê esse povo de carro aí embaixo, ar-condicionado no máximo, quando chove, também, não faz nem diferença pra eles. 


Logo que eu cheguei de Jaboatão, sabe, Rita, eu fui morar numa vila que tem perto do Rio Jaguaribe. É São Rafael, ali, uma casinha bem pequenininha, que dava para a ponte. Teve uma vez que choveu dois dias seguidos sem parar, enchente braba, e o Rio teve uma cheia. Quebrou até a ponte. A água entrou em casa e levou tudo: sofá, televisão, armário de cozinha, a geladeira novinha que eu tinha acabado de comprar, tudo, tudo que eu tinha. Sobrou só as coisinhas do meu quarto. Uma tristeza, perder tudo que você tem de uma hora para a outra. 


Mas a gente tá sempre dando a volta por cima, né, Taci? A vida não roda, não, ela capota. Um dia esse pessoal tá no bem bom, no friozinho desses carros chiques, dinheiro que não tem nem onde gastar. Dando tudo fácil pra esses meninos aí, ó, que não sabem nem atravessar uma rua. No outro dia, não estão mais aqui e fica o povo todinho brigando por herança. Desse jeito. Melhor viver a vida simples, mesmo que passe mais calor. Vai descer na próxima, não é? Cuida.


Foto: Daniel Búrigo, A Tribuna https://www.4oito.com.br/noticia/o-calor-que-se-passa-nos-onibus-10221

A Música Artesanal de Milton Dornellas, por Ana Lia Almeida

Foto: https://ritmomelodia.mus.br/entrevistas/milton-dornellas/   Música Artesanal , este é o livro de partituras que Milton Dornellas lanço...